Tarveiz eu conti


Escrito em 11 de fevereiro de 2006

Tarveiz, seu moço, eu num consiga dizê bem o que quero, até purquê não istudei prá isso. No interior, ondi nóis morava, era muito atrasado. Meu pai trabaiava in uma fazenda, mais também era pião e passava os dia cuidando de cavalo, pialando prá cá e prá lá – mas isso num interessa, né? U qui interessa é purquê eu vim pará nessa Vila. Pois o meu namorado, depois meu marido tinha uns parente puraqui – qué dizê, puraqui não, né, mais em Viamão.
Intão casemu nu interior, e fúmu prá Viamão. No início foi bom, eu não conhecia nada. Depois meu marido ficou desempregado, e foi na época in qui nasceu u Márcio. Olha, moço, passemu muito problema, meu marido Severo adueceu, e nunca mais conseguiu se empregá. Isso foi desdiqui u Severo teve um acidente – ele ía atravessandu na Farrapos i um ônibus pegô ele. Nunca mais foi u mesmu.
Sem trabaio, sem nada, sem dinheiro prá vortá pru interior, acabemu sabendu dessa Vila aqui em Portu Alegre. Vendemu u pôco que nóis tinha e viêmu prá cá. Paguemu us réis qui nus sobraro i nus instalemu.
Nu início foi muito complicado. Da avenida tinha só u nome, e, prá saí daqui, nóis tinha qui isperá muito tempo. Depois, cu’m tempu, veio a luiz, e mais gente passo a morá aqui. Us filhu foram cresceno, – u Márcio já tinha deiz anu, e a Edviges, sete. Daí as coisa foram melhoran’u,. eu tinha faxina certa prá faze.
….
Não, quéissu! Nem u Márcio nem a Dviges puderu istudá. U qui a genti ganhava di manhã comia di noite, e era assim. Até qui fui trabaiá na casa da dona Sara, qui era judia – prá dizê bem a verdade, moço, nem sabia o qui era judeu, só qu’êles tinham matadu Cristu, que me diziam lá nu interior, mas, como sô di religião, não m’importava muito.
Fiquei cuase vintianu trabalhanu c’a Dona Sara, e aprendi muito. No natal deles, a gente ganhava comida, uns pão trançadu, e sempre que pudia a Dona Sara mandava coisa prás criança, rôpa, brinquedu, u qui désse. Depois a Dona Sara i u seu Abrão encaminháru imprego prô Márcio, qui passô a trabaiá na loja do seu Abrão, i hoje tá casadu com minha nora Ilaci – é, sim, eu já tenho dois néto! U Márcio virô gerenti da loja i ganha bem, tem seu carrinho, compráru casa na Restinga, graças ao seu Abrão e a Dona Sara.
Quandu a Dviges casô, elis ajudaro na festa, e até a lua de mel deru prá guria, qui sempri foi da cabeça virada, e hoje vívi c’um português dono di uma farmácia no Partenon. Eu, depois, num dava mais prá trabaiá, foi mi crescenu uma dor nas costa, qui cada dia tá pior. Aí, mi aposentei, mas meus filhu tâo criado, graças a Deus.
Si num fosse a Dona Sara i u seu Abrão, num sei o qui pudia tê acontecido. Êlis morava numa casa lá na Osvaldu Aranha, depois si mudaro pá Protásio. Mais uma coisa qui m’impressionava naquela gente era as istória qu’elis contava, i parecia romance. Tevi uma veiz Qui o seu Abrão falô sobri uma matança qui ôve na raça deles – u tal de olocausto. Era uma noiti fria, i eu tinha ficado até mais tarde, e, depois da janta, ele mi contô a istória, prá mim contá pros meus filhu. Teve uma hora qui ele me mostrô uma tatuagem qui tinha nu braço esquerdo, e foi a única vez que eu vi o seu Abrão chorá. Até hoje não contei a istória prôs meus filho, muito, muito triste, seu moço.
Mais um dia, seu moço, um dia tarveiz eu conti.

HILTON BESNOS

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s