Sebastião Salgado – Photo+ Entrevista


Sebastião Salgado fala de “Gênesis”, projeto que o levou a 30 países em 8 anos

FONTE Zero Hora

http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2014/02/sebastiao-salgado-fala-de-genesis-projeto-que-o-levou-a-30-paises-em-oito-anos-4419763.html

Fotógrafo brasileiro radicado em Paris trará a Porto Alegre exposição em que documentou regiões remotas e povos isolados. Em entrevista, fala sobre o projeto e revê episódios da carreira

Sebastião Salgado fala de "Genesis", projeto que o levou a 30 países em oito anos Sebastião Salgado/Divulgação
Foto de uma das aldeias dos Zo’é, na Amazônia, imagem do projeto “Gênesis”Foto: Sebastião Salgado / Divulgação

A fotografia de Sebastião Salgado impacta não apenas pela expressividade do preto e branco com a qual forjou uma estética pessoal, impressiona também pela escala monumental. Seus projetos são resultado de anos de viagens e expedições, como mostra o mais recente ensaio-reportagem, Gênesis, cuja exposição reunindo mais de 200 imagens estreou em 2013 e será apresentada a partir de 13 de março, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, pelo 7º FestFotoPOA.

Se as cenas de miséria e desigualdade ao redor do mundo fizeram a fama de Salgado, agora ele mostra regiões que permanecem praticamente intocadas. Gênesis é resultado de um trabalho realizado entre 2004 e 2012 em mais de 30 países nos quais o fotógrafo esteve em lugares remotos para captar paisagens raras e povos isolados. Na entrevista a seguir, concedida desde seu escritório em Paris, ele conta um pouco do que encontrou pelo caminho, revê episódios de sua trajetória e, aos 70 anos, afirma:

– Não fotografo para convencer ninguém.

Zero Hora – Gênesis é resultado de expedições realizadas ao longo de oito anos, por mais de 30 países. O ensaio-reportagem percorre regiões do planeta de difícil acesso. Houve viagens que exigiram longas caminhadas?

Sebastião Salgado – Fiz muitas viagens assim. Tive que andar muito, acampando o tempo todo. Fisicamente foi muito duro. No norte da Etiópia, por exemplo, saímos de uma cidade chamada Lalibela com destino ao Parque Nacional de Simien. Em linha reta, são 850 quilômetros. Fizemos esse caminho a pé pelas montanhas, porque não tem estradas. No trajeto, passamos três vezes dos 4 mil metros de altitude. Essa viagem foi excepcional. Primeiro, porque eu já tinha 64 a 65 anos, e conseguir fazer um trajeto desses nesta idade é um desafio. Segundo, porque eu descobri coisas que nenhuma das pessoas que foram comigo sabiam.

ZH – Que tipo de coisas?

Salgado – Organizamos uma expedição. Tinha 15 pessoas comigo e 18 jumentinhos que levavam nossa carga pelas montanhas altíssimas da Etiópia. Digo que fiz uma viagem ao Velho Testamento, pois encontramos comunidades cristãs e judias que ainda vivem nessas montanhas sem conhecer nada da nossa civilização atual. Mas são muito desenvolvidas. Fabricam tecido, têm uma agricultura sofisticada, produzem instrumentos metálicos e trabalham como nós trabalhávamos 2 ou 3 mil anos atrás. Foi uma viagem fabulosa por estarmos naquela região, no meio daqueles povos.

ZH – Gênesis também envolveu viagens pelo Brasil, especialmente em comunidades indígenas, algo que já era de seu interesse antes deste trabalho. Desta vez, houve contato com povos e aldeias que você ainda não havia fotografado?

Salgado – Foram as tribos dos Zo’é na Amazônia. Me desloquei para uma região a uns 300 quilômetros em linha reta ao norte de Santarém, no Pará. Eles são isolados e fazem parte do grupo linguístico tupi-guarani, o que nos faz saber que são originários da costa brasileira. Foram andando para o meio da selva em um movimento que, calcula-se, levou uns 3 mil anos até chegarem onde estão hoje. Eles têm uma cultura riquíssima, e os homens e as mulheres são muito lindos. E têm uma ótima saúde. Antes da viagem, ainda em Paris, fiz uma bateria de exames médicos exigidos pela Funai para que eu acessasse os territórios deles. E, quando cheguei a Santarém, ainda tive que passar por consulta com o médico da Funai. Aí, perguntei se eu tinha que levar algum tipo de medicamento para colocar na água para beber. O médico disse que não precisava, porque os Zo’é têm uma saúde fabulosa, tudo o que bebem e comem é de perfeita qualidade.

ZH – Os Zo’é foram, de algum modo, atingidos pela cultura do homem branco?

Salgado – Quando eu estive lá, os Zo’é ainda habitavam o paraíso, não tinham cometido o pecado original, depois cometeram. Um dia, a Funai percebeu que todos na tribo tinham ido embora. Fizeram uns 300 quilômetros entre rios e mata e chegaram a uma cidadezinha do Pará para conhecer os brancos. E depois voltaram.

ZH – E adotaram algum tipo de objeto ou hábito que não pertencia à cultura deles?

Salgado – Eles vivem ainda na idade da pedra, mas hoje mudou, alguns têm sandália de dedo, por exemplo. Quando fui lá, eles só tinham quatro instrumentos da nossa civilização: um facão, uma faquinha, uma lanterna, e as mulheres tinham um espelho. Isso porque eles foram contatados por um grupo religioso (o fato ocorreu nos anos 1980). Quando a Funai descobriu que eles estavam começando a ser catequizados, foi até lá com a Polícia Federal e retirou todos os religiosos com tudo o que tinham. Mas as autoridades não conseguiram tirar justamente o facão, a faca e o espelho. A lanterna foi a própria Funai quem forneceu. Lá, há muita jararacuçu, uma cobra grande, com carga de veneno muito grande. Os Zo’é são caçadores noturnos e, com a luz da lanterna, passaram a ver os olhos das cobras. Com isso, o índice de acidentes diminuiu, e se concluiu que a lanterna ajudava.

ZH – E o espelho?

Salgado – Não conseguiram tirar o espelho porque as mulheres adoram se olhar. Elas raspam o cabelo na frente e usam uma espécie de cocar feito com penas de urubu-rei. Fica muito bonito. Passei um tempão com eles, a Funai me autorizou a ir nas oito aldeias. Fui a primeira pessoa que viajou com os Zo’é e forneci para a Funai todas as referências de GPS de localização das aldeias. Eu viajava em grupo com eles, de aldeia em aldeia, passando uma semana ou 10 dias em cada uma. E aconteciam coisas assim: algo como a 500 metros de chegar na próxima aldeia, parava todo mundo para que as mulheres tirassem o espelho e se arrumassem, verem se estavam com o cocar, se estavam bonitas. Uma coisa sensacional isso.

ZH – E como se dava a comunicação?

Salgado – Viajava com a gente a Ana Suelly Arruda, uma linguista da Universidade de Brasília que conhece a língua deles. Ela foi para ser tradutora e elemento de ligação. A Ana aproveitava a viagem para acessar elementos da cultura, pois está transformando a língua deles em linguagem escrita para protegê-la. Os Zo’é já são muito poucos, cerca de 270. Há o receio de que a língua deles desapareça. Lélia e Juliano (mulher e filho de Salgado) também viajaram junto.

ZH – Ao longo das viagens de Gênesis houve momentos em que o senhor encontrou cenas de devastação ou da ação do homem?

Salgado – Encontrei destruição tanto na Amazônia quanto em outros lugares. Porém, esse não era o objetivo do meu trabalho. Eu estava atrás do planeta puro, o que tinha de mais protegido. E, uma vez ali dentro, estava no paraíso. Na Zâmbia, encontrei elefantes que atacavam, mas porque são caçados. É preciso tomar cuidado, eles veem carro e chegam pra arrebentar. Mas fazem isso porque se sentem ameaçados. Fui atacado duas vezes por elefantes, mas era muito mais uma defesa que um ataque.

ZH – O seu emblemático ensaio Êxodos, sobre povos levados a se deslocar em função de fome e guerras, flagra um tanto da miséria humana que acomete o planeta. Uma de suas séries mais impactantes foi realizada em Ruanda, em 1994. Como foi testemunhar a ferocidade do genocídio e o desespero da fuga?

Salgado – Quando fiz o Êxodos, tive uma convivência com coisas bárbaras, principalmente em Ruanda e na ex-Iugoslávia. Em Ruanda, vivi momentos terríveis, vi os efeitos do genocídio, fotografei cenas bárbaras de milhares de pessoas assassinadas. Tenho fotos de campos de refugiados onde, por dia, morriam de 12 mil a 15 mil pessoas. Eram montanhas de mortos. Vinha um trator recolhendo os corpos e jogando tudo em valas. Para trás, ficavam braços, cabeças, pés… Presenciar essas coisas foi muito duro, a ponto de, em certo momento, eu querer parar tudo. Minha cabeça ficou ruim, meu corpo começou a adoecer e tive que parar. E isso tem a ver com a origem do projeto Gênesis.

ZH – O senhor fala da mudança temática em sua fotografia? De, em lugar da fome e da pobreza, passar a fotografar paisagens intocadas e regiões remotas?

Salgado – Exato, porque, até então, eu havia me dedicado ao homem. E Gênesis surgiu do meu interesse pelos lugares remotos. Quando dei um tempo, depois do Êxodos, eu e Lélia nos voltamos para uma porção de terra que recebemos dos meus pais no interior de Minas, em Aimorés, onde nasci. Mas o lugar estava muito diferente da época da minha infância (ele se refere à fauna e à flora). A Lélia teve a ideia de replantar a floresta que tinha lá antes. E, com isso, criamos uma instituição ambiental no Vale do Rio Doce. Com o retorno da floresta, da vida, da água, dos insetos, dos pássaros, dos mamíferos, veio a vontade de voltar a fotografar.

Trabalhadores do Kuwait em 1991 para o ensaio Trabalhadores
Foto: Sebastião Salgado/Divulgação

ZH – A instituição a que se refere, o Instituto Terra, é hoje reconhecida pelo trabalho ambiental desenvolvido no Vale do Rio Doce. Esse envolvimento fez do senhor um ativista?

Salgado – Ativista eu acho um negócio meio redutor, as pessoas começam a te ver de outra maneira, sei lá. Temos, sim, um projeto ambiental no Vale do Rio Doce, envolvendo os governos dos dois Estados (Minas Gerais e Espírito Santo) e os produtores rurais. Ou seja, não estamos de um lado ou de outro. Precisamos trabalhar assim para recuperarmos as fontes de água da região do Rio Doce, que deve ter em torno de 170 mil propriedades rurais. Estamos num processo de recuperação de todas as fontes do Rio Doce. É um processo que vai levar mais uns 25 anos, mas já começamos, estabelecendo uma relação forte com o BNDES e várias empresas. Juntamos as forças todas nesse projeto, que é caro e vai levar muito tempo. Mas que salvará um rio que é um dos maiores do centro-sul do Brasil. Aliás, é o maior que nasce e morre no centro-sul. A presidente do Instituto Terra é a Lélia, que tem uma capacidade de organização muito grande. Temos um conselho diretor fantástico, formado por pessoas que conhecem a problemática do Brasil e a vivem de dentro, e ainda empregamos quase 200 pessoas e oferecemos centro de formação de técnicas ambientais. É uma das maiores instituições ambientais do Brasil.

ZH – É verdade que foi Lélia, sua mulher, quem lhe deu a primeira câmera?

Salgado – Ela não me deu, ela comprou uma câmera para fazer fotografia de arquitetura. E eu, pela primeira vez na vida, utilizei uma. A partir daí, monopolizei a câmera e virei fotógrafo. A Lélia é muito importante na minha fotografia. É ela que desenha os livros, que coordena nosso grupo em Paris. Minha vida e a dela não têm separação, já estamos há 50 anos juntos. Acho que já conta, é um tempinho, né? A exposição aí no Gasômetro tem curadoria dela.

ZH – Ao lado do cineasta alemão Wim Wenders, seu filho Juliano está fazendo um filme sobre o senhor. Já assistiu?

Salgado – Os dois estão juntos no filme, que já está pronto. Eles estão na fase de finalização, deve sair no primeiro semestre, só não sei quando. Eles estão na Alemanha, onde o Juliano trabalha com o Wim. Os dois estiveram em algumas viagens comigo, o Wim esteve muito no Brasil, no Instituto Terra, e muito em Paris. Sobre o filme, ainda não sei, não vi. Só sei o nome: O Sal da Terra.

ZH – Êxodos Gênesis, nomes de dois de seus principais ensaios, são palavras que expressam significados bíblicos. O senhor acredita em Deus?

Salgado – Acredito porra nenhuma, eu não acredito em nada. Não acredito em Deus, não tenho religião. Usei esses nomes assim como a Bíblia os usou. A Bíblia não criou estes termos, pegou emprestado. Eu também. São palavras que expressam exatamente o que fui fazer. Não é o fato de a Bíblia ter usado Êxodo Gênesis para catequizar momentos fortes da história religiosa que dá a ela o monopólio das palavras.

ZH – Gênesis marca sua adesão à tecnologia digital. Como se deu a transição do filme analógico?

Salgado – Trabalhei minha vida toda com filme. Mas, depois dos atentados de 11 de setembro, a segurança mudou muito nos aeroportos, foram aumentando os raios X até um ponto que, em 2008, eu não podia mais usar filme. Em uma viagem, eu passei por sete aeroportos, alguns com dois controles de raios X. Na maioria dos casos, passando uma vez, não incomoda muito o filme. Mas, passando três a quatro vezes, aí modifica a estrutura do grão do filme, as gamas de cinza. Então, começou a prejudicar muito o trabalho. Eu não aguentava mais, era uma tensão. O filme que usei para o Gênesis era de médio formato, um tipo de filme largo e comprido, chamado 220, e que não tem invólucro metálico de proteção como o de 35 mm. Então, era um filme muito mais exposto. Aí, chegou a hora de tomar uma decisão: ou eu resolvia esse problema ou abandonava o Gênesis pela metade.

ZH – Houve algum impacto nos procedimentos técnicos, na linguagem ou na estética?

Salgado – Quando descobri o digital, por um amigo meu, Philippe Bachelier, fotógrafo francês, comecei a fazer testes e vi que a qualidade era excelente. Levei dois anos para produzir um negativo de altíssima qualidade. Hoje, tenho um negativo melhor do que o negativo que eu produzia diretamente fotografando com a câmera. O meu processo digital ainda é finalizado com filme. Estou satisfeitíssimo com o digital, me simplificou a vida, não tenho problema de raios X e pronto.

ZH – Com a popularização dos meios fotográficos, a imagem adquiriu maior presença na vida contemporânea. Qual é o lugar da fotografia hoje? E o status do objeto artístico?

Salgado – A fotografia mudou muito, mas o objeto artístico, de alta qualidade, continua do mesmo jeito. A grande revolução do digital foi a destruição da fotografia de papel. Antigamente, a gente saía de férias com uma maquineta, na volta o fotógrafo do bairro copiava o filme, você colocava as fotos num álbum, chegava alguém na sua casa e você mostrava. Na festa de aniversário, todo mundo tirava foto. Passados uns anos, você olhava outra vez aquelas fotos e via seus meninos já rapazinhos. Era realmente a sua história, a sua memória. Hoje, com esse negócio de fotografar tudo com o telefone, as pessoas fotografam muito e não copiam para papel, não guardam. Acabam trocando de fone, perdendo as imagens. Hoje você não vive com a imagem, mas com a tomada dela, a emoção da hora, e não se volta muito a ela depois. Daqui a pouco, você tem milhares de fotos, e aquilo não te interessa mais. E fica por isso mesmo. Resultado: aquela memória fabulosa que a gente tinha com a fotografia acabou.

ZH – E o fotojornalismo, vertente à qual o senhor se filiou desde o início?

Salgado – Permanece muito forte, inclusive no Brasil. Temos muitos jornais ainda, com um staff de fotógrafos excelentes, todos fotojornalistas. Esses caras escrevem a história do Brasil em imagens. É pena que a gente não coordene tudo isso para mostrar e apresentar. Mas o fotojornalismo, pegando só o exemplo do Brasil, existe e segue de forma forte.

ZH – O senhor já disse que não busca mudar o mundo com a fotografia, mas expressar ideias e representar pensamentos.

Salgado – Fotografia é minha forma de vida, o que eu penso, meu aparato de ideias, minha ideologia inclusa. Não faço para convencer ninguém, faço pelo que tenho prazer, pelo que me revolta, pelo desejo de ir a algum lugar, pela grande curiosidade. Tudo isso junto deu na minha fotografia. Não fotografo para mudar a ideia de ninguém. Se as pessoas tomaram minha fotografia como exemplo, referência que as influenciou o que posso fazer, entende? Mas não fiz nem faço nesse sentido, de fotografia como militância ou para mudar a cabeça das pessoas.

ZH – Falando em militância, o senhor e sua mulher se engajaram contra a ditadura. É verdade que colaboraram com o guerrilheiro Carlos Marighella (1911 – 1969)?

Salgado – Não o conheci, mas participei de um grupo próximo a ele. Eu era jovem militante e jovem economista. Trabalhava numa empresa de programação econômica que era uma base do pessoal do Marighella. Colaborei e trabalhei para o grupo. E tive uma experiência indireta com Marighella. Como fotógrafo, eu estava trabalhando no norte da Etiópia, em 1983, acompanhando um grupo de guerrilha, o Tigrayan People’s Liberation Front, o TPLF, que hoje está no poder. Eles me levaram para fotografar a fome, era uma época muito dura lá. Um dia, vejo um deles lendo um livro. Era o manual de guerrilha do Marighella (Mini manual do Guerrilheiro Urbano, escrito em 1969 por Marighella). Eu fiquei pensando: Marighella? O livro estava todo escrito em aramaico, que é a língua de Cristo e a oficial da Etiópia. Aí comecei a conversar com os caras, contei que era do Brasil, que conheci pessoas próximas ao Marighella. Bom, a relação com eles mudou, eu virei um amigo e me ajudaram no meu trabalho. Tenho enorme respeito pelo Marighella, mas nunca o conheci.

ZH – Nas viagens que realiza desde os anos 1970, em algum momento foi acometido por alguma doença grave?

Salgado – Peguei malária, fui atacado por um vírus que paralisou metade do rosto, mas sempre pude continuar trabalhando. Meu assistente esteve três vezes bem doente em viagem. Uma no Brasil, no Xingu, quando teve uma infecção muito séria nos olhos. Outra vez foi na Ilha de Sumatra, de onde ele saiu bem doente e passou dois meses no hospital. Mas lá na Papua Oeste passamos a pior situação. Ele foi picado por uma vespa, imensa e muito venenosa. Meia hora depois, já estava delirando. Três dias depois, começou a gangrenar, ficamos com um medo imenso de ele perder a perna. Tivemos que tirá-lo da mata, conseguimos um pequeno avião para levá-lo até um aeroporto maior. Passou daí por Bali, Singapura e Paris. Ficou uns seis meses no hospital e quase perdeu a perna realmente. Já eu sempre tive sorte, porque estive com ele nos mesmos lugares. Acredito que tenho muito mais anticorpos, pois venho de um país tropical, cresci num mundo onde as bactérias são em número muito maior. Então, trago dentro de mim uma defesa que as pessoas nascidas nas áreas temperadas do planeta, como os franceses, europeus de modo geral e alguns asiáticos, não têm.

ZH – O senhor vive no Exterior. Como vê a imagem internacional do Brasil, especialmente pós-manifestações e pré-Copa?

Salgado – A imagem do Brasil fora é muito melhor do que dentro. Os brasileiros ainda não desenvolveram a autoestima pelo país e não acreditam muito no Brasil. Adoram falar mal de tudo, do transporte, da infraestrutura, da educação, do salário, dos políticos, de tudo. E não acreditam. Aqui fora, é (visto como) um dos grandes países do mundo, o que é verdade. O Brasil é uma das maiores economias do mundo, nosso produto interno bruto hoje, o oficial, é superior ao da Inglaterra, tá encostando no da França. Se você somar toda a economia paralela, que não é tomada em conta nas estatísticas, possivelmente a economia do Brasil seja superior à da Alemanha. Além disso, o Brasil tem uma grande população, é um país com uma verdadeira cultura.

ZH – Quando seu trabalho começou a ganhar dimensão, a partir dos anos 1980, surgiram críticas apontando sua fotografia como exploração da miséria e da fome alheias. Esse tipo de comentário ainda permanece?

Salgado – Esse é o discurso do crítico de arte, de pessoas que não estiveram lá, que não tiveram a mesma razão de ir que eu tive. Faço um trabalho estético, como qualquer fotógrafo. Trabalhamos com a luz em determinado espaço. Nossa linguagem é formal, trabalhamos uma forma. Você transforma em forma o que viu. Então, a linguagem formal é estética. Qualquer um faz isso. O fato de eu ter me transformando em um fotógrafo conhecido cria uma contrapartida, um movimento de anulação, de ataque. É uma dialética não só minha, mas de caras como Chico (Buarque), Caetano (Veloso) e qualquer um que começa a ser referenciado. Aconteceu comigo, mas não é um problema meu, e sim de quem entende dessa maneira. Continuo fazendo minhas fotografias do mesmo jeito. É minha vida, minha maneira de viver. E pronto.

Exposição “Gênesis”
> Com presença do fotógrafo, a exposição com mais de 200 fotografias será aberta em 13 de março, às 19h, na Usina do Gasômetro, dentro da programação do 7º FestFotoPOA. Visitação gratuita até 12 de maio.
> Sebastião Salgado fará palestra em 14 de março, às 10h, no Salão de Atos da UFRGS, em evento considerado Aula Magna dos 80 anos da UFRGS.

Gênesis
De Sebastião Salgado
Taschen/Editora Paisagem. Fotografia, 520 páginas, R$ 150 (em média)
> O livro apresenta o ensaio-reportagem Gênesis, resultado de oito anos de viagem por mais de 30 países. Sebastião Salgado percorreu lugares de difícil acesso, procurando regiões e povos isolados. A edição é organizada geograficamente em cinco capítulos: Planeta do Sul, Santuários, África, Espaços do Norte, Amazônia e Pantanal.

Da Minha Terra à Terra
De Sebastião Salgado, com Isabelle Francq
Companhia das Letras. Tradução de Julia da Rosa Simões. Biografia, 160 páginas, R$ 24,90 (livro) e R$ 16,90 (e-book)
> Em depoimento à jornalista francesa Isabelle Francq, o fotógrafo Sebastião Salgado narra episódios da sua infância em Aimorés, Minas Gerais, da breve carreira como economista e do exílio na França. Também reconta o início de sua trajetória como fotógrafo nos anos 1970, o trabalho em grandes agências de fotografia, as principais coberturas e os projetos autorais, dos quais Gênesis é o mais recente.

Refugiados de Ruanda em campo da Tanzânia em 1994. Imagem do ensaio Êxodos
Foto: Sebastião Salgado/Divulgação
O fotógrafo Sebastião Salgado, 70 anos, que apresenta em março, em Porto Alegre, a exposição Gênesis
Foto: Tomas Arthuzzi/Divulgação
Criança de família de sem-terra na Bahia, em 1996, para a série Retratos
Foto: Sebastião Salgado/Divulgação
Fotografia de 1984 na Etiópia para o ensaio Sahel
Foto: Sebastião Salgado/Divulgação
Oração no México. Fotografia de 1980 do ensaio América Latina
Foto: Sebastião Salgado/Divulgação

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