Frugalidades


Talvez nada mais eu possa contar que seja minimamente novo, algo que não conheças, sequer uma lembrança das mais frugais te servirão como novidade. Sabes tudo de mim, e, ao sabê-lo, és um curioso espelho de mim mesmo. Se quebrares, quebrarei contigo, pois em tua memória habitam todas as minhas histórias, fugazes ou não, tristes e alegres, hipócritas ou sagazes, mas compartilhadas sempre.

Pensei eu: como romper-te se romperia a mim mesmo? Como arranhar esse cristal que tanto em aborrece e me deixa desconfortável se, em te ferindo, firo minha própria essência? Criei sozinho este duo que agora me confrange. Sim, fui eu mesmo que te criei nova criatura da matéria que antes era. Tempos atrás era um desconhecido, mas hoje não. Hoje minha história está cravada, lavrada em teu corpo, em tua mente. Me conheces a um ponto que não me resta mais nenhuma alternativa senão imolar-me a mim mesmo através da tua alma.

Foi assim que planejei, meticulosamente, livrar-me de ti, sabendo, contudo, que alijaria de mim mesmo a melhor parte que jamais me coubera. Foi triste mas empreendedora a tarefa de planejar a tua morte, e em tal mistério projetei meus melhores dias. Pouco me importa, por ora, se já não estás mais aqui. O que me tortura é a ironia.

Não era suficiente estar longe, apartado de ti, porque sempre haveria a possibilidade de que viesses até mim, para denunciar minhas idiossincrasias, para rires dos meus desesperos, eis que em ti residia minha melhor parte, mas também a pior delas, a que continha as ignomínias que praticara. Não havia, portanto, de simplesmente apartar-me de ti, que isso em nada garantiria minha tranqüilidade e minha paz de espírito. Há mistérios e desígnios que se devem cumprir independentemente de quaisquer remorsos, maiores eles sejam. Foi então que, lembro-me agora, num sábado pela manhã, comecei laboriosamente a industriar tua morte, teu desaparecimento para sempre, e, por outro lado, meu conforto absoluto.

De todos os caprichos que cumpri em minha miserável existência, a tua liquidação foi o que menos me custou, dadas as vantagens de não confrontar-me mais contigo. O plano foi simples, mas não importa aqui contar como ele ocorreu, menos ainda os fatos que fiz ocorrer aos poucos, de maneiras sutis e casuais e que redundaram em tua morte. Talvez concorrer para teu desaparecimento deste mundo tenha sido, de todas, a minha obra mais bem acabada, mais perfeita, aquela que não levantou suspeitas, tanto que posso, agora, dizer tranqüilamente que, mesmo sendo descoberto, não seria preso em hipótese alguma.

O tempo que protege os criminosos quis também estender seu manto igualitário sob minha cabeça. A justiça dos homens, se é que ela existe, fracassou completamente em meu caso, porque ela mesma decretou que o tempo é meu aliado. Se eu entrasse numa delegacia qualquer e mesmo confessasse e assinasse de sã consciência minha confissão, mesmo assim nada de ruim me aconteceria. Deus protege seus fiéis, e o diabo ilude a todos.O diabo, se pensarmos bem, é uma criação de Deus, e portanto, a Ele não ilude, mas nós, que vagamos entre os Altos Desígnios de Um e a ignomínia do outro, nos contentamos em arquitetar pequenas maquetes de civilidade. Estou pois, mergulhado em um sistema legal que protege o meu crime, acobertado pelo tempo. Assassino sou, mas dizê-lo ou não, nada muda. Melhor então que o diga, para que meus ânimos se acalmem.

Quando livrei-me de ti e privei de mim mesmo meu melhor sentido de vida, tentei ainda continuar procurando meus caminhos, mas o peso da tua ausência não me fez suportar tantas e tantas estradas de desilusão. Entreguei-me ao vício da escrita, podendo então passar a escrever minhas misérias e travestí-las nos corpos e nos perfis de imaginados personagens. Ganhei muito dinheiro associando ilusões e jogando desavergonhadamente com as mais grotescas fantasias que o homem pode imaginar. E hoje estou aqui, plenamente puro para receber de todos as glórias com as quais me homenageiam. Se as minhas mãos ainda guardam simbolicamente o cheiro do sangue que provoquei, meu sorriso e minha alma se alegram pois não há poder maior do que os aplausos com que homenageiam esse mero escritor de fanfarras. Mas, de todo, se querem fantasias, se desejam o burlesco, que minhas mãos também encontrem espaços entre o sangue e a ignomínia, para receberem carinhos, afetos e reconhecimento com o qual o público nem sempre distinto buscou me distingüir.

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