O mal


Sou outro e pouco reconheço do que fui, embora insista em procurar, senão o todo, pelo menos traços reconhecíveis de mim próprio o que me parece, por vezes inútil. Colaborei em muito com minha própria perda. Por opção me auto-alienei,  o modo pelo qual de muito me apartei de convicções, hábitos, cenários, objetivos, amigos, amores, confrades e mesmo inimigos. Talvez consiga expor como me desconstituí; no entanto há em tudo uma matriz psicológica, uma maturidade de temperamento que é muito difícil de ser superada. Tantas foram as minhas ocupações no sentido de superar o que fui, que desisti, mais por fadiga do que por desinteligência, de parte dos meus propósitos. De todo modo, optei pelo mal, e é bem possível que esse seja o cerne da minha mudança e do fato de hoje não mais me reconhecer, não mais poder sentir com a mesma intensidade e com a mesma volúpia o que antes era tão comum e tão esperável.

A opção pelo mal foi consciente; e como dizer isso sem que acorra qualquer comiseração, qualquer sentimento de pobreza, sem que haja um encolhimento de minha humana condição; como ver em mim a degradação dos sentimentos, trocar a inocência pela impudicícia, a ética pela corrupção, a beleza de alma pelo vício enojadamente escancarado, a solidariedade pelo egoísmo? Como não confranger-me ante minha pessoa? Por que, hoje em mim não restam dúvidas, senão certezas de que devo permanecer assim, ilhado em minhas pequenas (ou nem tanto) maldades? De certa maneira, simplesmente me habituei à maldade, especialmente às pequenas misérias e tristezas das quais hoje, sou companheiro convicto.

Aprendi, contudo, que o mal depura e que a pureza ajuda a degradar. A pureza é branca, virginal, não admite qualquer risco, portanto não admite o pecado, as hipocrisias, as mentiras sub-reptícias, a sujeira; mesmo a sua poeira deve ser evitada pela superfície imaculadamente estéril do que se estende ante um plano totalmente neutro, como a superfície lisa de um porcelanato. Não há sangue humano na pureza. A sua construção, ao contrário de grandes movimentos de humanidade, esconde o radicalismo de raça, não admite o que se associa ao deletério, ao que se irá degenerar. As excrescências não habitam a superfície lisa, monocórdia e sem atrito da pureza. Assim, optei pelo que é brutal e não cálido, pelo que é real, e não virtual, pelo que é solitário, não pelo que é compartilhado, pelo contraditório, não pelo consenso, pelo sujo, não pelo limpo, enfim, por tudo que não pudesse em mim despertar o sentido de participação em algo que só existe na imaginação e nos sentimentos pueris de uns pobres coitados. Não sou coisa, por isso não sou um produto; quanto à pureza, lido usando com prazer a máscara que ostentam os algozes.  HILTON BESNOS

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