Conversando na biblioteca


2007, eu creio. Estávamos eu e Gisele conversando na biblioteca da escola onde trabalhamos. Gisele é uma querida colega, viajante dos quadrantes da mesma escola municipal, onde compartilhamos esforços, dividimos alegrias, nos espantamos ante as perplexidades que acorrem a todos nós. Gisele é algo parecido a uma intelectual humanista, descentrada de seu próprio umbigo. Uma grande pessoa, um grande papo, a G.

Pois estávamos falando sobre os mundos distintos nos quais transitamos todos os dias, sobre as múltiplas diferenças que nos aparecem a todo instante, nos colhem e nos mantêm reféns de suas vontades. Derivamos para questões de lógicas de mercado, falei sobre Rifkin e de um livro que acho muito interessante, “O fim do emprego”, escrito em 1995. Falávamos sobre esse mundo fluido e excludente, onde os parâmetros de humanização parecem ter tomado um rumo vazio e estéril.

Na biblioteca da escola trocávamos algumas idéias quando de repente uma idosa senhora, aluna da EJA, veio entregar um livro. G olhou-a e perguntou-lhe se havia gostado da leitura, e recebeu um sorriso de volta. Sim, ela havia gostado. Despediu-se, atenciosa, e se foi. Observei a senhora, seus olhos cansados, suas rugas contando histórias improváveis no rosto marcado, seu corpo rechonchudo e levemente encurvado, sua roupa tantas vezes usada…

Tudo me lembrou uma expressão de Rifkin, amarga mas infelizmente cada vez mais real: existem milhões de pessoas no mundo que, do ponto de vista do mercado, são consideradas economicamente irrelevantes. Não conseguirão empregos, não melhorarão sua capacidade de vida, porque já queimaram todas as etapas e porque não tem capacidade para participar do banquete do consumo. No contexto, ele falava sobre as questões do trabalho dentro de um mundo envolto na terceira revolução industrial – a da rede de comunicações, do avanço tecnológico e da maximização dos lucros, gerados não apenas pelo capital, mas pela supressão das despesas de pessoal.

Estava ainda a imagem da velha senhora na minha mente, quando subi para a sala de aula, após ter me despedido de G. Em muitos dos rostos dos meus alunos vi a imagem que ainda me tomava os sentidos. G, àquele momento, já teria saído da escola, porque seu horário já havia encerrado. No entanto, entre G, a velha senhora estudante, eu e alguns alunos mais ou menos contentes, pairava a triste mas realista observação de Rifkin.

Na maioria dos casos, durante a vida, somos aprendentes de nós mesmos, dos outros e do mundo. Porém essa possibilidade de aprendizado não é meramente uma idéia, mas uma realidade, da qual não podemos nos evadir A conversa da biblioteca, no fundo, não era uma conversa, mas, sim, uma constatação. HILTON BESNOS

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