Em nome de Deus


A relação do homem com Deus anda muito complicada, diria que, no mínimo atendendo a preceitos capitalistas, muito estilo débito-crédito. Em outros termos, parece que a criatura cobra do criador o fato de ter sido pelo mesmo criada. O filho exige do pai coisas que são insensatas.

Pais sabem, no fundo, embora disfarcem ou se refugiem para isentar-se, que, em verdade a vida dos filhos é obra deles, filhos. É claro que os pais responsáveis e amorosos procuram, por todos os meios, ensinar aos filhos, dar-lhes os exemplos, mostrar-lhes quais as diferenças entre os caminhos a abandonar e a seguir. No entanto, haverá um momento em que o filho não mais verá seus pais como heróis, como as únicas referências em suas vidas.

Filhos amadurecem ou não, estudam ou não, trabalham ou não, mercanciam ou não mas, de todo, filhos crescem. E, ao fazê-lo, buscam sua independência, senão plena, ao menos discursiva. Há mesmo um momento em que filhos pensam que pais atrapalham suas vidas, o que se não é uma mentira deslavada, também não é uma verdade absoluta.

Somente mais tarde filhos entenderão os pais. Tempus regit actum, diriam os romanos. No entanto, quando se pensa metaforicamente em Deus, a sua imagem institucionalizada é a do Pai, um Pai Maior, assim, em maiúsculas. E, sendo assim tão Onipotente, Onisciente, Criador, os pais e filhos terrenos, crendo-se suas criaturas, passam a querer que o Pai lhes dirima as dúvidas, os afaste dos obstáculos, lhe providencie uma vida boa, saudável, longa e frutuosa, um perdão em todo redimidor das faltas cometidas e um séquito de desejos e pedidos infindáveis e por vezes inalcançáveis.

Ao instituir Deus, as religiões oficiais e oficiosas instituíram também a Benção do Arrependimento. Tudo é possível desde que nos arrependamos sinceramente do que fizemos. A Benção do Arrependimento é a grande borracha que apagará nossos limites do consciente e do inconsciente. É a nossa Fênix rediviva, é o nosso encontro com os Deuses. A Benção, portanto, é o caminho que perseguimos diariamente. Como sempre, continuamos sem alterar uma vírgula os nossos comportamentos, as nossas idiossincrasias, os nossos ódios, as nossas pequenas e grandes vilanias, pois possuímos, escondida em nossa cartola de coelho o momento do arrependimento primal.

Enquanto isso, requeremos a Deus, solicitamos a Deus, imploramos a Deus, nos martirizamos em nome de Deus, nos suicidamos em nome de Deus, matamos em nome de Deus, provocamos guerras e extermínios em massa em nome de Deus, rezamos homilias eternas em nome de Deus, nos sacrificamos a nós e aos demais em nome de Deus, ateamos fogo em nome de Deus e, talvez o pior de tudo, cremos ou mentimos crer que há pessoas especiais, iluminadas, que falam institucionalmente em nome de Deus. De certo modo, convenientemente nos associamos às mesmas, com a esperança de que sobrem, afinal, alguns lucros em meio à tanta dedicação. Talvez por isso enriqueçamos tanto os esclarecidos, os que falam A Palavra Divina.

Somos filhos que não crescemos, somos eternamente infantis, somos especialmente manipuladores. Deus, efetivamente, não pode nos tratar como adultos. De certo modo, somos pífios e, assim sendo, não nos compete querer mais do que, como crianças desamparadas, acorrermos aos seus Braços pedindo perdão para fazer exatamente igual depois. Ao jogar tudo em Deus, nos divorciamos da realidade, do que podemos fazer, esquecemos que temos livre arbítrio e de que, para o bem ou para o mal, construímos nossa casa.

Somos, ao tudo e ao cabo, regentes de um mundo que, invariavelmente nos ameaça, nos fustiga, nos tem como reféns. Fomos nós que o quisemos assim, que o fizemos assim, enquanto, entre lágrimas e arrependimentos, nos fartávamos do nome de Deus, justificativa para todos ou quase todos os crimes que, invariavelmente, cometemos.

 

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