Contra os clichês econômicos dos Estados Unidos


FONTE CARTA MAIOR

http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia%2FContra-os-cliches-economicos-dos-Estados-Unidos%2F7%2F30510

 

Contra os clichês econômicos dos Estados Unidos

É fácil e mesmo divertido argumentar a respeito de ideias. É muito mais difícil argumentar a respeito de fatos. E Piketty nos dá fatos para argumentar.


Divulgação

O Capital no Século XXI foi escrito na tradição dos grandes textos econômicos. Onde John Maynard Keynes escreveu A Teoria Geral do Emprego, do Lucro e do Dinheiro, em resposta aos “economistas clássicos” e Karl Marx escreveu O Capital em resposta aos “economistas burgueses”, Thomas Piketty escreve em resposta aos “economistas dos EUA”. Como seus antecessores, ele não mede palavras. Depois de dar aulas no MIT aos 22 anos, ele voltou a Paris aos 25, em 1995, dizendo: “não achei o trabalho dos economistas estadunidenses muito convincente”.

O método de Piketty é uma crítica explícita aos acadêmicos “preocupados demais com problemas matemáticos insignificantes, de interesse apenas para eles mesmos”. Embora as ferramentas da matemática sejam elementos de importância fundamental para a moderna profissão da economia, Piketty está certo ao chamar a todos os cientistas sociais, inclusive os economistas, a “começarem com as questões fundamentais e tentar respondê-las”.

Piketty faz duas questões fundamentais no seu novo livro: “O que realmente sabemos a respeito de como a riqueza e a renda evoluíram, desde o século XVIII, quais as lições que podemos obter desse conhecimento para o século atual?”.

Piketty e seus colegas passaram os últimos anos reunindo um banco de dados da renda mundial, sua investigação detalhada na renda dos países ao redor do globo, abrangendo várias décadas. Em alguns casos – França e Reino Unido – ele também sustenta a análise em fatos relacionados à acumulação de riqueza ao longo de séculos. Como ele diz, “foi pacientemente estabelecendo fatos e padrões e então comparando diferentes países que pudemos identificar os mecanismos em operação e ganhar, assim, uma ideia clara do futuro”.

Informado por uma base de dados histórica e transnacional, Piketty avalia – e rejeita – uma série de conclusões geralmente aceitas no pensamento econômico, embora admita, cuidadosamente, as limitações inevitáveis das fontes “imperfeitas e incompletas”. O principal achado de sua investigação é que o capital ainda importa. Os dados mostram um ressurgimento recente nos países desenvolvidos da importância do rendimento de capital em relação à renda nacional, de volta a níveis vistos pela última vez antes da Primeira Guerra Mundial.

Na análise de Piketty, sem um crescimento econômico rápido – que ele argumenta ser altamente improvável agora, que o crescimento populacional está se tornando mais lento – retornos de investimentos continuarão a crescer mais rápido do que os da produção. As desigualdades de heranças e de renda continuarão crescentes, possivelmente em níveis jamais vistos anteriormente.

Dentre outras conclusões, os dados levam Piketty a descrever o argumento popular segundo o qual vivemos numa era de nossos talentos e capacidades importando mais como “otimismo irracional”. Os dados também o levam a rejeitar a ideia de que a desigualdade de salário cresceu na medida em que a mudança tecnológica aumentou a demanda por trabalhadores altamente qualificados e bem educados.

Em vez disso, a evidência de Piketty sugere que é a ascensão do que ele chama de “supercomando” dos 1%, desde 1980, que está impulsionando o aumento da desigualdade de renda. É aqui que Piketty dá o golpe mais sério nos economistas.

Na sua discussão sobre os prósperos 1%, ele observa que “dentre os membros dos grupos dos super ricos, estão economistas acadêmicos, muitos dos quais acreditam que a economia dos EUA está funcionando muito bem e, em particular, que ela recompensa os talentos e os méritos acurada e precisamente. Esta é uma reação humana muito compreensível”. Piketty concorda que, no longo prazo, os investimentos em educação são um componente importante para qualquer plano voltado à redução das desigualdades no mercado de trabalho e para a melhoria da produtividade. Mas por si sós, eles não são suficientes.

Este livro é importante pelos seus achados, assim como pelo modo como Piketty neles chega.  É fácil – e divertido – argumentar a respeito de ideias.  É muito mais difícil argumentar a respeito de fatos. E fatos é o que Piketty nos dá, ao passo que pressiona o leitor a se engajar na jornada de suas implicações.

(*) Heather Marie Boushey é diretora executiva do Washington Center for Equitable Growth e integra o Center for American Progress, um think tank dos EUA. Artigo publicado na The American Prospect.

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