Amizades, como os vinhos, maturam


Tem amizades que, durante algum tempo (ou muito) ficam em stand by. Isso: ficam ali por perto, esperando serem ativadas; se não forem, vão ficar insensíveis, esperando que o sentimento que as mantém ligadas colapse de vez. Essas são amizades que estão contingenciadas a determinadas passagens e cenários de nossas vidas; são aquelas da época da escola, da época em que trabalhamos aqui ou ali, dos momentos mais ou menos marcantes em que tais ou quais pessoas estavam mais ou menos próximas. Significa que a proximidade continua? Não, mas sim que ela pode ser resgatada em razão da significância dos momentos em que privamos dessa amizade ou, simplesmente, pela nossa memória, que passa a buscar pessoas importantes em determinados eventos em nossa vida. No entanto, se a amizade está em stand by, nem sempre isso é possível, pois os cenários mudam e talvez obtenhamos, tão-só, uma cordialidade um pouco mais atenciosa, mais saborosa, mas não mais a intimidade plena que é requisito para a amizade verdadeira.

A amizade requer, especialmente, renúncia, interesse na outra pessoa pelo que ela é, compreensão, e mesmo oposições. Podemos ser duros com nossos amigos: eles entenderão, mesmo que sejam dispensáveis as palavras. Há uma sinergia presente, há um doar constante, há uma cumplicidade que o tempo cada vez mais ajuda a construir.

Costumo dizer que amizade é amor sem sexo. O contrário não é verdadeiro, porque o amor não dispensa a amizade. Sou mais amigo de quem mais amo. Como o amor mesmo pode dispensar o sexo (a paixão não!) podemos então, verdadeiramente, sermos amigos de pessoas do mesmo gênero ou não. Aliás, o que mais nos impede de cultivarmos amizades reais são conceitos ou pré-conceitos sócio-culturais e histórias de vida. Quando, contudo, nos ocupamos de nossa humanidade, absolutamente desimporta qualquer outra referência que não seja a humanidade do outro. Claro que podemos ter amigos que sejam mais ou menos humanos que nós, mas quem cultiva a intolerância ou quem restringe as suas experiências e relacionamentos à uma carta de obviedades, tem maiores dificuldades em se encontrar plenamente com grandes amizades.

É necessário, também, que nos permitamos ser flexíveis o suficiente para compartilharmos com os outros o que somos. Por vezes nossa auto-crítica anda tão alta e nossa estima pessoal tão baixa que nos tornamos áridos, secos de sentimentos e mesmo estranhos a nós mesmos. Não raramente deixamos de viver prazeres porque nos embrutecemos a tal ponto que perdemos a capacidade de sentir e, portanto, de nos congraçarmos com o outro. Passamos a ser vítimas de uma indiferença a qual demos causa.

Grande amigo meu, D., tem conversado comigo de quanto percebe as amizades ou os relacionamentos esvaziados; casamentos, namoros, nada disso parece estar a salvo de um escapismo individualista, em que cada uma das partes busca, em primeiro lugar, seu interesse, para somente depois pensar ou referenciar o outro. Infelizmente tenho de concordar, pois é assim que percebo um mundo onde as intenções sempre passam pelo individual, pela satisfação de desejos muitas vezes inalcançáveis. Talvez por isso a amizade seja cada vez mais tão buscada, como um aporte aos sentidos e aos sentimentos, como um local especial, onde podemos confiar, onde podemos ser nós mesmos. A retirada da máscara social da conveniência talvez seja, aí a operação mais difícil e, por todos esses fatores, é indispensável que haja tempo para que a amizade amadureça, crie vínculos, raízes, possa estender-se além do manto da superficialidade óbvia a qual todos nós nos submetemos.

O tempo para descobrirmos o sabor do vinho, para crescermos, para chorarmos e nos angustiarmos; o tempo para sorrirmos e construirmos nossos pequenos-grandes sonhos, para caminharmos e reconhecermos, em nossas vidas, um projeto. O tempo para que tenhamos possibilidades reais de termos poucos, raros, talvez apenas um amigo. Talvez, e com muitíssima sorte, um Schannini José K, ou um Stalimir, um Antonio Augusto ou uma Jaqueline.

Amizades que lembram um vinho (e é claro que muitos amigos/as não estão listados/as como exemplo, mas poderiam estar, sabem disso) maduro, requerendo tempo, maturação, conversas, troca de experiências. A amizade reside aí, e não nos interesses imediatos e negociais. Somos amigos porque queremos ser e continuar sendo. Como disse uma vez, amizade é amor sem sexo.

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