Escrever de modo conveniente


Escrever de modo conveniente.

Vejam, amigos, aconteceu isso com fulano ou com beltrano no século xis. Percebam que o escritor zê também tocou no tema no século ypsilon. Assim sendo, vou conduzí-los, senhores leitores, a que pensem comigo e cheguemos todos à mesmíssima conclusão que, por ser de domínio geral, os senhores já chegaram antes de começar a ler o que eu escrevi. Por outro lado, meus fiéis leitores: isso não é bom, não nos dá a todos uma sensação de déja vù reconfortante?” HILTON BESNOS

Um dândi mexendo no motor de um carro. O jeito confortável de escrever me incomoda. Acaba dizendo sempre obviedades, e se estrutura a partir do senso comum. Quando escreve sobre liberdade, não toca em nenhuma ferida, em nada que não seja conveniente. Nada de ingressar em profundidades, pois isso leva a compromissos, estabelece alianças, mas pode ser perigoso para quem possui na escrita um meio totalmente comercial de expressão. Voltando: quando escrever sobre liberdade, se lembrará então algum escritor, ou pessoa pública que fez isso ou aquilo a respeito do tema e – zás! – temos aí mais uma crônica maravilhosa para lermos no jornal, de preferência no café da manhã ou durante as tardes de domingo e pronto, esquecermos com a mesma facilidade com que lemos.

Quem escreve assim tem muitos leitores fiéis: é o entertainment escrito. Poderá até selecionar algum assunto mais rumoroso, mas ele mesmo, escritor, não se permitirá nenhum tipo de exposição; invariavelmente irá conduzir sua produção para o senso comum. Será a favor do amor, da liberdade de modo geral e da liberdade de imprensa de modo particularíssimo, será anti-racista, anti-sexista e anti qualquer parâmetro que não esteja ligado ao senso comum. Por isso, será quase que uma unanimidade, desenvolvendo um estilo inconfundível praticamente impermeável à marginalidade, ao estranho, ao estrangeiro e ao desviante. É um escritor que se devota aos perfumes do bom senso, cultivando uma postura judicante.

Há nessa escrita uma fluidez, uma delicadeza etérea, quase que urbanística, uma comodidade, uma inteligência no escrever que faz com que o estilo seja tão soberano que a mensagem em si não importe tanto. Afinal, quando nos dispomos a lê-lo, já sabemos de antemão que nada encontraremos de polêmico, de incomodativo, de trabalhoso, de perigoso, de instigante. Então, comme si comme sa, ali está nosso biscuit, nosso biscoitinho literário que irá combinar perfeitamente com o que fazemos ou não fazemos em nosso dia-a-dia.

Ora, com o decorrer do tempo o que mais se destaca nesse conjunto é o modo de escrever, o estilo, a forma e não aquilo que foi escrito, a mensagem que talvez remotamente devesse ser transmitida, os nós que possivelmente gostaríamos de desatar (mentira!) ou as denúncias que pretenderíamos fazer. Como tal escritor não se envolve absolutamente com tais agruras, em verdade não importa muito o que ele escreva, mas sim a maneira pela qual escreve. O estilo, então, avulta, toma asas, fica em um plano superior.

Aqui a criatividade morre, passando a ser apenas um subproduto comercial. Exatamente como os cordões de um par de tênis que nos servirá durante algum tempo e que, dias depois jogaremos fora, quando algo mais interessante nos acenar do mercado. HILTON BESNOS.

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