O fim da leitura?


Há um texto de Jorge Luis Borges, um de seus contos fantásticos, intitulado“Utopia de um homem que está cansado”, que julgo bastante apropriado para ilustrar algumas das engrenagens profundas que influenciam a nossa relação com a leitura. O conto relata o encontro inadvertido de um ancião com um homem que vive no além do futuro antevisto. Algumas das passagens do conto assombram pelo modo como profetizam o fim da leitura, naquele que é o sentido que pretendo abordar aqui.A passagem do conto de Borges que vale o resgate diz respeito à interpretação que aquele homem do futuro efetua acerca do destino da leitura, especialmente aquela que se nutre do espírito niilista do nosso tempo (sobre isso, devo preparar em breve um artigo que se ocupará da interpretação do niilismo brasileiro). A personagem borgiana “relembra” um passado no qual “Tudo se lia para o esquecimento, porque em outras horas o apagariam outras trivialidades”.Pensemos o mundo atual, essa dinâmica de relações superficiais com os objetos do mundo, incluindo-se ainda o outro, esse outro que também é tido como objeto. Usualmente, nós nos relacionamos temporariamente com os objetos. Cada circunstância relacional cumpre apenas o papel de nos distrair. Até que se prove o contrário, tudo é descartável. Que importa guardar, cuidar, manter? Que importa qualquer fato ou história quando a qualquer momento podemos acessar o Google ou a Wikipedia para saber mais a seu respeito? Os fatos, as pessoas, os objetos do mundo agora só possuem valia se podemos usá-lo de algum modo para os fins que nos interessam. Parece que, enfim, como dizia Schopenhauer, todas as ordenações que fazemos são de modo que o traço trágico e sem sentido da vida não seja sentido: “A vida comum é distração”.Como isso afeta a nossa relação com a leitura? Ora, nós precisamos de uma distinção clara aqui. Nós desde sempre compreendemos leitura como interpretação. No entanto, a interpretação pode acontecer em diferentes níveis. Eu gosto de pensar nesses níveis categorizando-os no campo da semântica e da pragmática (no sentido linguístico). Interpretar um texto à luz da semântica significa ser capaz de compreender a relação dos sinais (palavras) com as coisas. Isso promove um nível de relacionamento fundamental com a leitura, na medida em que se pode captar o texto, ou seja, ser capaz de compreendê-lo enquanto tal, e até mesmo reproduzí-lo. Nesse caso, o objeto da leitura é apenas o texto em si. Já no caso da pragmática – que trata do uso da linguagem, tendo em conta a relação entre os interlocutores e a influência do contexto –, a leitura acontece para além do texto. Esse modo de leitura leva em conta o leitor, o escritor, a época em que o texto foi escrito, a época em que o texto é lido, o arranjo dos sinais promovidos pelo escritor, o conhecimento prévio do leitor diante das construções lógico-semânticas do texto, o valor semântico dos sinais etc. Nessa perspectiva, não somente podemos reproduzi-lo como podemos recriá-lo. Assimilar um texto, assim, é ser capaz de reinventá-lo continuamente. Admito, porém: ler desse modo parece exigir demais de uma sociedade que está ávida por se distrair.Quando falo do fim da leitura, refiro-me à indisposição de nossa geração de leitores e escritores para praticar interpretações no nível pragmático (sempre no seu viés linguístico). Essa indisposição nos remete à mera leitura semântica. É raro que alguém, nos dias de hoje, se demore sobre um texto. Isso é uma pena, pois como a personagem de Borges nos ensina: “Não importa ler, senão reler”. É no hábito da releitura de um texto bem escrito que acontece a produção de sentido. A transformação que um texto pode promover no modo de percepção do mundo só acontece quando alguém lhe dedica tempo. E dedicar tempo não significa esperar encontrar construções semânticas já conhecidas. É preciso reconstruí-las, repensá-las em suas dimensões associativas e conectivas. Para tanto, não se deveria revigorar o apreço pelo trivial. Seria preciso rejeitá-lo.Lamentavelmente, a sociedade do século XXI parece-me indiferente a tudo isso. Observo essa tentativa desenfreada de alcançar a comunicação integral e imediata com o outro como uma gradual destruição da capacidade criativa de escritores e leitores. Há essa crença recalcitrante de que, para alcançar os jovens leitores, é preciso se aproximar da linguagem deles. Contudo, creio que há mais aí do que uma tentativa de salvação da leitura. Acho que a mediocridade estimula a mediocridade, pois como diz o Prof. e filósofo alemão Vittorio Hösle, “A mediocridade tem medo de tudo aquilo que é melhor do que ela”.A minha pauta para o problema da leitura, enquanto editor, escritor e filósofo, movimenta-se na recuperação de algo que estamos perdendo: o compromisso com a obra. Em meus artigos recorro insistentemente a esse tema por se tratar de um caminho que não pretende ser alternativo, mas concomitante e necessário. Eu não acredito em valor sem esforço. Essa tendência mórbida de se compor e oferecer textos fáceis de serem absorvidos é perniciosa. Os textos devem exigir esforço de todas as partes envolvidas. E há uma razão para crer nisso: a beleza habita na sutileza, mas ela só nos abre as portas quando descobrimos, nas entranhas do texto, a composição que inclui o leitor, o escritor, os sinais e a história. Somente ali, onde a leitura alcança a perspectiva pragmática, ocorre a produção de novos sentidos e, consequentemente, a liberdade.

*Cassio Pantaleoni é escritor e filósofo – www.8inverso.com.br
cassio@8inverso.com.br

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