Paradoxos


05/03/2014

Talvez em nenhuma outra época da humanidade tenhamos acumulado tantos recursos científicos, técnicos e de conhecimentos. No entanto admitimos um caos social organizado e consciente orquestrado por parte daqueles que não tem qualquer compromisso senão com sua própria vaidade e egoísmo. Aceitamos pacificamente que pessoas e organizações acumulem riquezas materiais publicáveis apenas em cifras de milhões, de bilhões, assim como o fazemos em relação aos milhões que vivem abaixo da linha da miséria e que não tem acesso à medicina, à educação, à habitação e condições mínimas de cidadania.

Continuamos tratando de fontes de reservas animais, vegetais, minerais e do subsolo como se fossem inesgotáveis, quando sabidamente não são. Nunca, por efeito das tecnologias de comunicação, da informática, da medicina, da biotecnologia e da agricultura estivemos tão próximos de conseguirmos solucionar os problemas mais aflitivos que afligem a todos, o desemprego, a violência, o cansaço, a dor e, por outro lado, nunca depredamos tanto, além de demonstrarmos conscientemente nossa indiferença social, cultural, afetiva e financeira em relação ao outro. Somos radicais na preservação dos nossos sítios, mesmo que as raízes plantadas estejam minguando dia-a-dia.

Descartamos valores como solidariedade, maturidade, amizade e compaixão, substituindo-os pela arrogância, pelo dinheiro e pelo consumo. Como desaprendemos a conviver, para quase tudo deve haver uma lei, uma norma, uma regra, uma normatização para regular nossos comportamentos, o que aumenta a sensação de perda de liberdade individual. Para sabermos que não podemos dirigir alcoolizados milhões são mobilizados em campanhas publicitárias para dizer-nos o que já foi ditado pelo bom senso.

Admitimos ainda regimes fechados de governo, bem como o jogo sórdido promovido por meios de comunicação. Sabemos definir problemas, mas não temos ética nem respostas institucionais equilibradas para encaminhar as soluções. O mundo, mesmo assim, progride. Nunca houve tantos hospitais, tanta informação, tantas possibilidades de uma vida com maior qualidade. As organizações sociais, comunitárias e assistenciais se multiplicam. Indústrias criam necessidades artificiais para que nós, consumidores, possamos nos perder em sonhos e cartões de crédito, enquanto campeia a violência e a desumanidade programadas, o que aumenta o cinturão de miséria que a cada dia se torna mais denso, apertando os limites das grandes cidades. Confiamos em religiões, mas não em nossos vizinhos que, na maior das vezes, desconhecemos.

Dizemo-nos civilizados, mas banalizamos a tortura, a guerra comercial e os extermínios étnicos, que, em nome das religiões, são tolerados, incentivados e mesmo banalizados pela imprensa, a mãe de todos nós. Nossa solidariedade termina onde começa nosso interesse. Somos um poço de paradoxos e examinamos nossos umbigos como se o mundo todo estivesse ali, para prestar suas homenagens às nossas frágeis e inconsistentes arrogâncias. No entanto, continuamos, e as nossas vidas vão construindo pontes entre tais paradoxos e inconsistências.

Então nos dizem que o caminho para que consigamos sair destas incongruências é a educação, mas mesmo ela não tem a capacidade de iluminar tanto esta longa estrada. É necessário, além dela, que tenhamos informação, além de uma tábua de valores e de virtudes que não se esgotem e não se esvaiam quando surgem interesses menores.

Hay hombres que luchan un dia y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos. Pero hay los que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles. Bertold Brecht.

É necessário cultivar a inteligência no sentido civil, não nos alienarmos do que ocorre, não pensarmos que o que acontece além de nós não nos alcançará, mas nos colocarmos na pele daquele que já foi alcançado pelo infortúnio; que não tenhamos medo de contrariar pessoas ou instituições e que busquemos a probidade; que tenhamos coragem para dizer o que é justo mesmo que tenhamos prejuízos com isso. É hora de nos tornarmos mais que homens e mulheres, mas humanos. Somos todos humanos e não podemos compactuar com o vírus paralisante e letal da estupidez.

15/02/2014. HILTON BESNOS
 

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