O nome da esquerda (que ousa dizer seu nome)


Fonte: Convergência

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O nome da esquerda (que ousa dizer seu nome)

Betto della Santa

Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política – de Norberto Bobbio, filósofo italiano mundialmente reputado – teve tradução brasileira lançada apenas um ano após sua aparição na Itália, pela Editora Unesp, sob prefaciação de Marco Aurélio Nogueira poucos anos após a queda do Muro de Berlim. O que o projeto intelectual de Bobbio intendia, e seus congêneres brasileiros emulavam, era o que no mundo da política se consagrou como a síntese, por assim dizer, entre liberalismo, por um lado, e socialismo, por outro. O livro ganhou o mundo.

Para Além da Esquerda e da Direita: o futuro da política radical – de Anthony Giddens, conhecido sociólogo acadêmico britânico –, sob tradução de Alvaro Harttnher, pôs em circulação (pela mesma editora) uma obra surgida no contexto efetivo do mesmíssimo 1994, na Europa ocidental, tão-só um ano depois. A tradução da tradição seria reinventada por Giddens, e encontraria sólo fértil para uma versão tropical no Brasil, sob o codinome de guerra do que viria a ser a “Terceira Via” ou um neosocial-liberalismo. Tal qual dizem os italianos; tradutor, traidor.

A coincidência espaço-temporal (e suas respectivas aclimatações) impõe uma reflexão crítica. Se no compêndio universitário Anthony Giddens meneia a cabeça para fora do campus ensaiando pisar o palácio de governo, sob signo de uma velha-nova “revolução sem revolução”, é Norberto Bobbio quem vai exprimir um corpo de ideias vigoroso e claro o bastante como para merecer ser lembrado até hoje. Vinte anos após sua primeira publicação no país e passados já mais de dez anos de governos dirigidos pelo Partido dos Trabalhadores vale a pena ver de novo…

Esquerda, volver

Antonio Gramsci estabeleceu que o quantum máximo de consciência possível dos grupos sociais fundamentais na sociabilidade capitalista, i.e., os proprietários não-trabalhadores e os trabalhadores não-proprietários (ou exploradores e explorados), seriam, justamente, o liberalismo e o socialismo; enquanto as suas quotas mínimas, ou de maturação ainda “embrionária” – e “molecular” –, seriam, nas suas expressões mais baixas, o protecionismo por um lado, e o corporativismo por outro. Mas, e Direita e Esquerda, onde entrariam? Palavras têm história. E a história dos homens não tem sido outra senão a história das lutas de classes. Ora, senão, vejamos.

Esquerda, já o sabemos, trata-se de uma noção operativa e, sobretudo, relacional. Isto é, uma posição no interior de um Spectrum, a qual se referencia a partir de outras posições. Os significados – e as razões – da noção de Esquerda remetem, necessariamente, a Direita e a Centro; divisões que retém relevância, até hoje, ainda e quando a localização e a fronteira de cada uma esteja longe de ser fixa. A origem desse termo é sobejamente conhecida. É relativa à Revolução Francesa – marco histórico da política moderna – durante sua Assembléia Constituinte. Quão mais próximo/distante do piedoso ideal de igualdade social, mais Esquerda/Direita ser-se-ia.

Quer seja pelo pressuposto teórico conceitual – individual e social, respectivamente – ou pelo conflito histórico concreto, entre quem possui e governa e quem trabalha e é governado, liberalismo e socialismo representam politicamente irreconciliável antagonismo social. O escriba italiano considera o igualitarismo real impossível (“desigualdades naturais existem e, se algumas delas podem ser corrigidas, a maior parte não pode ser eliminada”; BOBBIO, 1995, p.102) ou improvável (“podem ser apenas desencorajadas”; idem, ibidem) porque, para ele, a defesa da superação de todas desigualdades seria resultado de uma “visão utópica (…) mas, pior do que isso, uma pura declaração de intenções, à qual não pareceria ser possível adjudicar … sentido razoável.” (idem, p.100.)

De raiz

Reanudar o núcleo vivo dessa contradição real – ou a dilaceração societária em classes – é tomar distância da letra do texto e do projeto político delineados por Bobbio. Uma esquerda digna desse nome deve começar por se lembrar que no princípio, antes do verbo, está a ação. Para uma esquerda que não abandonou a perspectiva revolucionária ousar dizer seu nome não é mais que um começo. Mas pode ser um bom começo. Inclusive, mesmo, bom começo de prosa. Se tradicionalmente Esquerda e Direita remetem a um sistema topológico de fronteiras móveis há algo para além (ou aquém) de desenhar a linha divisória. Algo quiçá mais antigo, subterrâneo.

Depois de confrontadas as relações passadas e presentes de uma distinção política entre Direita e Esquerda, e após aludir ao corajoso – muito embora autolimitado – e combativo título de Vladimir Safatle (2012), uma questão permanece em aberto. Para além de responder o que é Esquerda seria, no mínimo, importante, perguntarmo-nos o que a Esquerda é. Uma escavação arqueológica a contrapêlo da história das ideias se faz, aqui e agora, necessária. Há nas palavras Direita e Esquerda algo mais à contracorrente do quê, já pura e simplesmente, uma posição relacional nos vestibulares debates do parlamento, no processo político-social francês do Séc. 18.

O radical que une radicais, cujo substrato mais fincado remonta ao principio igualitarista, sejam eles anarquistas coletivistas, socialistas revolucionários ou comunistas internacionalistas, não deixa de ser o mesmo, nos mais distintos idiomas. Os vocábulos anarquismo, socialismo e comunismo permanecem similares em português e espanhol, inglês ou francês, alemão e russo; mas são usadas palavras muito diferentes para referir-se à esquerda: linke, gauche, Left etc. Com um juízo implícito, de sabor libertário, poder-se-ia concluir que, enquanto a Esquerda nos divide, anarquismos, socialismos e/ou comunismos são de fato, mais que por direito, aquilo que nos une.

“Gauche na vida”

Carlos Drummond fala de um anjo torto que lhe teria vaticinado ser “gauche na vida”. “Let’s play that”, de Torquato Neto, re-cita a referência drummondiana, como a necessidade férrea de “desafinar o coro dos contentes.” Apesar da forma de palavras tão manifestamente diferentes entre si – nas mais diversas línguas – há, nelas, algo de latentemente identitário: a obscuridade e/ou ubiqüidade de um sentido latente ao respectivo conteúdo. Left deriva da raiz Anglossaxã Lyft; Fraco; Débil. Já Sinistra, do Lat. Sinistrum, deriva de Mal; Infortúnio. O bem-aventurado seria “Ambidestro”, qual seja, habilidoso, com as duas mãos, isto é, as mãos Direitas.

Droit, Right, derecho, rechte, destro ou dret, o Direito, para que nos façamos destros e claros, tem significação a mais unívoca e positiva: a Retidão, as Leis, o Certo. Todo contrário de Canhoto o qual, aliás, tem de se adaptar a uma realidade espelhada, que se apresenta ao avesso, impondo-se-lhe um mundo invertido. Historicamente, em várias regiões do mundo, o lado Esquerdo, e em especial, o Canhotismo manual, foram considerados, essencialmente, negativos. Direito/Direita seriam a Autoridade/Justiça, Propriedade/Legitimidade, Autenticidade/Realidade. As associações de direito à Direita, e da direita a Direito falam, eloqüentemente, a esse respeito.[1]

As trilhas de tais considerações remontam linhagens da antiguidade clássica e passagens das mais remotas civilizações antepassadas. “Eres tan Zurdo”; “To have two Left feet”; “S’être levé du pied Gauche” e, enfim, “Que Canhoto/Canhestro!”, são sinônimos para o contrário do Bem e do Bom. As associações desfavoráveis – e/ou as conotações negativas – da utilização da mão esquerda entre diferentes culturas são variadas. Em algumas regiões, a fim de se preservar a limpeza pessoal quando o saneamento era problema de difícil solução, a mão direita, enquanto mão predominante na maioria dos indivíduos, foi utilizada para comer, manipular alimentos ou interagir socialmente. A mão esquerda era usada para a higiene sobretudo pós-micção/defecação.

Ezkerr, um nome próprio

No islamismo é costume usar a mão direita, em oposição à esquerda, como a mão para se levar comida à boca. No cristianismo a direita de deus representa a mão favorecida e Jesus está sentado ao lado destro. (A esquerda, porém, é a mão do juízo. O arcanjo Gabriel fica a seu lado canhoto, e é um dos seis anjos da morte.) Na Europa do Séc. 19 homossexuais eram chamados “Canhotos” enquanto, nas nações protestantes, os católicos foram chamados “Pés canhotos”. A magia negra foi referida como “caminho à esquerda”, fortemente associada a satanismo e, em muitos lugares, “mau-agouro”. No panteão Yorubá, Esquerda alude a energias pouco iluminadas.

Gauche, Left, izquierda, linke, sinistra, esquerra, a Esquerda, tem significado canhestro. Não bastasse, na língua portuguesa, o buraco é mais embaixo. O vocábulo Esquerda/Esquerdo advem do Euskera –  idioma basco/vasconço –, Ezkerr, via Castelhano; Izquierdas. As diversas línguas nacionais da Península Ibérica – como o catalão, o galego e o castelhano; este último tão-simplesmente chamado “espanhol”, sobretudo na América Latina e/ou fora da Europa ocidental – herdaram à língua d’Euskadi – País Basco – radical comum Ezkerr: Izquierda/Esquerra/Esquerda.

Acontece que o idioma Euskera, basco ou vasconço, é justamente uma das únicas línguas vivas cuja origem é a mais absolutamente desconhecida, até hoje, dentre lingüistas, antropólogos e experts. Não pertence ao ramo filogênico indoeuropeu e tampouco tem qualquer similaridade com as estruturas lexicossemânticas / linguisticogramaticais de qualquer idioma/dialeto praticado nas proximidades e cercanias seja dos eixos Norte-Sul ou Oeste-Leste no continente eurasiático. Assim sendo, uma filologia vivente da palavra Esquerda demandaria conhecimento especializado no campo etimológico mais ardiloso da história social e político-cultural comparada das línguas.[2]

Da cultura à política, do político ao cultural

O processo histórico-social que a noção de Esquerda perquiriu até adentrar o vocabulário político moderno tem a ver com a temporalidade lenta das mais longas durações e à secular tradição do princípio igualitarista. E, acreditamos, não pode ser associado à mera casualidade o acaso objetivo de, àqueles que conspiravam contra o poder legal de veto real à Esquerda do parlamento, ter-lhes ocorrido postar-se do lado de cá e não no de lá. A relação política e cultural, com periféricos ou subalternos, deserdados da Terra e à margem da história, seria um mero azar? Uma escovação da história a contrapêlo permite, e um marxismo profano exige, tal interpretação.

Mas por que expressões como Gauchismo, Leftwing communism e/ou Ultraesquerdismo seriam taxadas pejorativas justamente entre a “esquerda da esquerda”? O Zeitgeist da época às vezes, como que de galhofa e/ou em tom de galhardia, pode soar tão zombeteiro quanto um verdadeiro espírito de porco. Longe de socialista revolucionário ou comunista internacionalista, como o eram Karl Marx e Friedrich Engels, quem se nos reconta – em tom de história oral e autobiográfica – é Renato Ortiz, um já reconhecido antropólogo cultural brasileiro. No 33º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais, a (poderosa) Anpocs de-há poucos anos Ortiz tomou parte à abertura na seção solene, “Conversa com o Autor”.

Para reconstituir à sua própria demarché um jornalista político francês é parafraseado para descrever/narrar um ambiente político e intelectual em que não se reconhecia mais como Esquerda a socialdemocracia ou o stalinismo naquele 1968 parisiense: “O gauchismo é como o Sal de que fala a escritura, seu sumiço levaria a um deserto de farisaísmo e imobilidade. (…). Seu destino não é a disciplina, mas a transformação. … a recusa. (…) Privada de gauchistas uma sociedade é dirigida à asfixia.” Um burocrata sindical exclamaria alto: —“Não somos nós!” para delimitar-se de anarquistas, dissidentes e trotskistas no cortejo do 1º de Maio. Ontem como hoje toda esquerda pode parecer extrema, se vista do palácio, e soar ultra, quando ouvida do gabinete. A crítica ao cretinismo antiparlamentar e o embate à idiotia eleitoral são parte da mesma herança.

Referências bibliográficas

BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: razões e significados de distinção política. São Paulo: Unesp, 1995.

SAFATLE, Vladimir. Uma esquerda que não tema dizer seu nome. São Paulo: Três Estrelas, 2012.


[1] O jogo de palavras que dá nome à noção de Copyleft, em oposição a Copyright, não deixa de ser um belo exemplo.

[2] Sem qualquer pretensão de resolver a questão, por ora nos basta com saber que mesmo dentre os estudiosos há as mais diferentes versões polêmicas a respeito da genealogia do adjetivo Ezkerr. Além de uma curiosidade. Ezkerr, entre os bascos, constitui popular nome próprio. Curioso também notar que intelectuais tão perspicazes quanto Bobbio, Giddens e Safatle não tenham dito palavra sobre aquilo que, originalmente, a Esquerda quer, de fato, dizer…

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