O país da água (com gráficos)

FONTE: CONEXÃO ISRAEL

http://www.conexaoisrael.org/o-pais-da-agua/2014-05-15/amir

O país da água

Como Israel venceu um dos seus maiores desafios e transformou-se em uma nação com excesso de recursos hídricos?

Uma fonte de problemas políticos e econômicos

Desde antes da criação do Estado, a questão do abastecimento de água esteve na pauta de prioridades das lideranças sionistas. Um dos motivos da criação dos livros brancos na época do mandato britânico, que restringiam à imigração de judeus a terra de Israel na época do Ishuv, foi o relatório escrito peloexpert em agricultura, Sir John Hope Simpson, que apontava para um gargalo no suprimento de água na região, impedindo assim qualquer aumento populacional, sob pena de uma total escassez de recursos hídricos para seus habitantes.

A apreensão apenas se intensificou após 1948. Em menos de dez anos, a população do país mais do que duplicou e a falta de suprimento de água figurava entre os principais desafios do recém-criado estado.

O tempo passou, mas o desafio continuava. O desenvolvimento agrícola restringia-se de acordo com as possibilidades do país – a escolha do tipo de produto agrícola dependia da quantidade de água necessária para o seu plantio. A disputa pelos recursos hídricos serviu de fonte de atritos políticos tanto com a Síria, como com a Jordânia. Inclusive, a disputa pela água do rio Jordão foi um dos principais motivos causadores da Guerra dos Seis Dias. Ou seja, a água era tanto um problema estratégico interno que limitava o desenvolvimento econômico, como uma fonte reincidente de atritos com os países vizinhos.

imagem kineret

Se a demanda aumenta…

Sir John Hope Simpson tinha razão em dizer que o aumento da demanda tornaria inviável a questão hídrica no país, mas ele errou em acreditar que a oferta de água se manteria estática.

Havia espaço para novas fronteiras tecnológicas. A revolução teve origem na utilização de duas novas fontes de água não consideradas previamente: a água tratada do esgoto e a água proveniente do processo de dessalinização.

O gráfico 1 nos mostra a evolução da quantidade de água tratada por esgoto (reutilizada para fins agrícolas) e a água obtida por meio do processo de dessalinização em 1990, 2000, 2010 e 2011.

 grafico1

Por falta de dados mais detalhados para todas as categorias, não expus as quantidades atuais, mas estima-se que em 2013, as plantas de dessalinização já detém o potencial de produzir 505 milhões de metros cúbicos (mais que o dobro do que está apontado no gráfico para o ano de 2011). Uma revolução. O avanço tecnológico se deu por conta de um grande investimento do governo em plantas de dessalinização, mesmo quando estas ainda eram economicamente inviáveis.

Na última década, beneficiados pela descoberta de campos de gás natural – fato este que torna menos custosa a produção de água por este método, reconhecido por seu altíssimo consumo de energia – os israelenses passaram a contar com uma fonte segura de abastecimento. Estima-se que o custo baixou de $1 por metro cúbico para $0.40, ou até menos nas plantas mais modernas.

Paralelamente, Israel criou um esquema de tratamento de água de esgoto para fins agrícolas que está entre os mais desenvolvidos do mundo. Como pode ser visto no gráfico 2, a partir de 2011 o uso deste tipo de água foi maior que o uso de água doce na agricultura. A utilização deste recurso tem dois benefícios simultâneos: introduz uma nova e importantíssima fonte de água para o país e reduz a necessidade do uso de fertilizantes, já que a água reciclada já contém diferentes nutrientes que ajudam no enriquecimento do solo.

grafico2

As consequências

Da mesma forma que no campo político, a questão da água passou de motivos de guerra para a assinatura de acordos de paz com os jordanianos, a receita pode repetir-se agora que Israel goza de um saldo de recursos. Este superávit pode ser uma importante moeda de troca em uma região em que a água ainda é escassa e disputada. Se não diretamente, a elaboração de projetos de cooperação em conjunto com países vizinhos pode vir a ser um fator essencial na criação de uma utópica (hoje em dia!) integração regional.

Gráfico 3 – Variação do nível da água do lago Kineret

A linha vermelha de baixo representa o limite inferior: o momento de preocupação do israelense

Enquanto isso, a população segue observando atentamente o nível de água do lago Kineret (gráfico 3). Anos de poucas chuvas são marcados por apreensão, enquanto anos chuvosos ainda são comemorados. A cultura por aqui continua a mesma, seja por desconhecimento, seja por tradição.

Particularmente, não acredito que a população mudará seu comportamento, já que esta cultura de valorização dos recursos hídricos passou a ser uma marca da sociedade – ela está enraizada no pensamento do israelense.

Mas mais importante que isso, a história da água apresenta uma característica ainda mais marcante desta sociedade. Característica esta que foi a responsável pela idealização, criação e segue hoje sendo um pilar básico da continuação deste Estado: a exímia capacidade de transformar desafios em oportunidades.

Fontes:

http://www.haaretz.com/news/national/1.570374

http://www.water.org.il/

http://www.mekorot.co.il/HEB/WATERRESOURCESMANAGEMENT/CONSUMEDATA/Pages/default.aspx

http://www.mekorot.co.il/Heb/articles/Pages/Kinneret.aspx

www.cbs.gov.il

Livro de ouro da agricultura e colonização – Editado pelo jornal Maariv, 2012

Se você é a favor da guerra às drogas, leia

FONTE SPOTNIKS
Cotidiano

SE VOCÊ É A FAVOR DA GUERRA ÀS DROGAS PRECISA DAR UMA LIDA NESSA HISTÓRIA EM QUADRINHOS

Um dos debates mais importantes de nosso tempo na arte dos quadrinhos.
guerra-as-drogas

O debate sobre a criminalização das drogas é um dos mais importantes – e acalorados – de nosso tempo. Segundo dados divulgados pelo Relatório Mundial sobre Drogas da ONU, no ano passado, cerca de 5% da população mundial entre 15 e 64 anos usa drogas ilícitas – o que corresponde a uma média de 243 milhões de pessoas. É um número e tanto, mas não é o único dado superlativo nessa história. Estima-se hoje que 40% dos 9 milhões de presos em todo o mundo estejam na cadeia em razão das drogas – e isso tudo tem um custo altíssimo. Segundo a London School of Economics, essa guerra já custou ao mundo mais de 1 trilhão de dólares e criou um imenso mercado negro, avaliado em aproximadamente US$300 bilhões – um mercado negro cada vez mais fortalecido por organizações criminosas que, ao contrário do que pode parecer, não estão nem um pouco interessadas nessa história de descriminalização. O impacto sobre o consumo dessa guerra? Insignificante. O impacto na minha e na sua vida? Incomensurável.

É absurdo imaginar que existam grupos fortemente armados por aí vandalizando, roubando e assassinando, cada vez mais poderosos graças a uma fatia de um mercado que movimenta uma montanha de dinheiro todos os anos? É duro pensar que essa turma está na porta das escolas, oferecendo substâncias da mais abjeta qualidade aos nossos filhos? Mas e se, ao contrário do que a gente imagina, essa história de guerra às drogas mais enriqueceu e empoderou esses criminosos, proibindo concorrência e transparência, entregando um monopólio de um mercado trilionário nas mãos de um punhado de pessoas dispostas a tudo para mantê-lo? E se essa história foi a responsável por criar drogas muito mais perversas do que a humanidade jamais ouviu falar – como o crack? E se defender uma guerra que até hoje não produziu qualquer resultado signifique defender menos policiais nas ruas combatendo crimes como assassinatos, assaltos, sequestros, estupros? E se essa turma toda movimentaum caminhão de dinheiro em corrupção, eleja candidatos, molhe a mão de autoridades importantes, tenha trânsito livre em Brasília? E se essa história de “não devemos dar concorrência para as Farc porque ela terá o monopólio do mercado de drogas na América Latina” seja estorinha pra boi dormir e não faça o menor sentido do ponto de vista econômico? De que lado você quer ficar?

Falar sobre o impacto das drogas no mundo é falar sobre economia do crime. E mais do que julgar pela emoção é preciso analisar fatos, estatísticas e informações históricas relevantes – inclusive dosresultados práticos de países que já tomaram medidas de legalização ou descriminalização. Falar que “quem defende esse papo defende traficante de drogas” é o mesmo que acusar quem defende o direito ao porte de armas de “defender os interesses de traficantes de armas”, ou ainda os movimentos pró-escolha de “defenderem os interesses das clínicas clandestinas de aborto” – você pode ser contra a legalização das drogas, o direito ao porte de armas e o aborto, mas certamente deve encontrar outros motivos para isso: em todos esses casos o que se busca é justamente tirar da ilegalidade e das mãos do crime mercados que movimentam bilhões todos os anos e deixam sequelas gravíssimas em toda sociedade. Acreditar que centenas de milhões de pessoas deixarão de consumir drogas ilícitas da noite para o dia – apenas porque “eu acho que isso é certo” – também não parece uma postura sensata para encarar esse problema.

Quer saber um pouquinho mais a respeito dessa história? Você está no lugar certo. A arte é do australiano Stuart McMillen.

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

21

22

23

24

25

26

Rodrigo da Silva

Rodrigo da Silva

Editor do Spotniks.

O reinado das agências de classificação de risco

MUNDO ECONÔMICO
O reinado das agências de classificação de risco

Longe das urnas, as três principais agências de classificação de risco dão a medida da crise que sacode a Europa, orquestrando o que o então presidente da Autoridade dos Mercados Financeiros (AMF) da França, Jean-Pierre Jouyet, qualificou de “ditadura de fato” dos mercados

por Ibrahim Warde

Como adolescentes agitados, os governos contemporâneos espreitam as mudanças de humor das agências de classificação de risco. Apanágio dos países ditos “emergentes” até a recente crise financeira, atualmente essa antecipação febril toma conta de todos. Dos cerca de 160 países avaliados, apenas 15 ainda ostentam a nota mítica, o triplo A. Ora, o sistema de classificação é rico em efeitos perversos, a começar pela natureza autorrealizadora das profecias desses nostradamus modernos. Basta que eles prevejam uma crise (mesmo sem razão) para que se precipite a própria crise.

Em outubro de 2011, a agência de classificação norte-americana Moody’s anunciou que examinaria a situação econômica da França para decidir se rebaixava ou não a nota do país. Mas o elemento-surpresa veio de outra gigante do rating, a Standard & Poor’s (que cinco meses antes tinha retirado dos Estados Unidos seu triplo A), quando decidiu rebaixar, em 13 de janeiro de 2012, a nota de nove países da zona do euro. A França perdeu seu precioso triplo A, que detinha havia 36 anos.

Ao rebaixar a nota francesa, a Standard & Poor’s citou não só o crescimento anêmico e o “endividamento” do país, mas também a “rigidez” de seu mercado de trabalho. Em resumo, as agências reclamam concomitantemente crescimento, austeridade e flexibilidade do setor trabalhista: uma lógica cujas falhas, contudo, são demonstradas pela agonia da economia grega, submetida recentemente ao controle do rigor fiscal. Mas, tanto faz, isso não importa…

 Adequação das políticas

Pouco antes da decisão da agência de classificação, Alain Minc, ligado a Nicolas Sarkozy [que deixou o posto de presidente francês em maio de 2012], declarava que o triplo A da França era sinônimo de “tesouro nacional”,1 sugerindo que a adequação da política do presidente (em particular o persistente plano de austeridade) às exigências do mercado era um trunfo de primeira grandeza para sua reeleição.

O então porta-voz do Partido Socialista (PS) Benoît Hamon fez uma análise diferente, num texto publicado em 2011: “Qualquer promessa de conquista social está exposta ao rebaixamento da nota de um país pelas agências de classificação de risco. É inaceitável, mas por enquanto é assim. Esse é o dilema da esquerda: combater ou trair”.2Aparentemente, o então candidato à eleição presidencial pelo PS, François Hollande, tinha feito sua opção. Após o rebaixamento da nota francesa, ele fez do então presidente, Nicolas Sarkozy, o alvo de suas críticas, a ponto de validar a ação das agências: “É a credibilidade da estratégia aplicada desde 2007 que está sendo posta em jogo. Tal estratégia não foi coerente, não foi constante, não foi previdente e, sobretudo, não foi eficaz”.3 O então primeiro-ministro, François Fillon, fez raciocínio semelhante quando respondeu: “Seria interessante saber o que uma agência de classificação pensa de um programa [como o do PS], no qual só o que há são argumentos que defendem gastos [públicos] e alta de impostos, e, pior ainda, a volta atrás, relativamente a decisões estruturais, como a reforma da aposentadoria ou a política nuclear da França”.4

 Ditadura dos mercados

O embate teve uma virtude. Revelou a lógica interna dos acontecimentos: atualmente, os programas econômicos dos dirigentes políticos europeus parecem prioritariamente destinados a seduzir os três famosos cérberos– o mítico cão vigilante – do setor financeiro [Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch Ratings], e não a população, inclusive em período eleitoral. Uma situação que Jean-Pierre Jouyet, então presidente da Autoridade dos Mercados Financeiros (e ex-secretário de Estado sob o primeiro-ministro François Fillon) da França, qualificou de “ditadura de fato dos mercados”.5

Há até pouco tempo, o poder das agências limitava-se ao mundo empresarial e das coletividades locais, a cujas emissões de títulos elas conferiam uma nota. A análise de solvibilidade dos tomadores de empréstimos e capitais é que a fundamenta. O triplo A, extremamente almejado e raramente atribuído, é concedido aos melhores tomadores e indica uma segurança de pagamento absoluta. À medida que a probabilidade de não pagamento aumenta, a nota diminui. O triplo B é sinônimo da menção “passável”, pois ainda se está – mas no limite – na categoria “investimento” (investment grade): ou seja, um investidor prudente ainda pode se aventurar. Abaixo desse patamar, já se cai na categoria de “especulação” (speculative grade), que só convém aos mais temerários, dispostos a assumir o risco em troca de um rendimento elevado. A nota D, atribuída aos títulos em defaultde pagamento, é sinônimo de pontuação zero do sistema.

Em princípio, uma boa avaliação permite emprestar a taxas mais baixas.6 Quanto mais a nota diminui, maior é a taxa de juros, pois os investidores exigem então um prêmio, o “bônus de risco”. Os títulos com classificação desfavorável (ou sem nota) são considerados “podres” (junk bonds), mesmo que seus vendedores prefiram a denominação “títulos de alto rendimento” (high yield bonds).

 Em busca de uma boa nota

O procedimento de classificação tem um funcionamento mecânico e regular: o cliente apresenta seu dossiê, uma equipe de examinadores vai visitá-lo e examina suas contas detalhadamente antes de fazer um relatório interno; esse relatório é em seguida submetido a um comitê que estabelece a nota. Para alguns tipos de empresa, um bom ratingé vital. Um banco com nota desfavorável, por exemplo, fica automaticamente em posição desfavorável perante seus concorrentes mais bem avaliados, que pagam menos pelos recursos que levantam. A mesma coisa acontece com as seguradoras: na medida em que a nota atribuída reflete a capacidade de honrar os compromissos relativos aos segurados, toda e qualquer degradação provoca a desconfiança dos clientes e, dessa forma, uma queda do faturamento.

Apesar de privadas, as agências de classificação de risco recebem a fiança do poder público, o que as autoriza a definir as regras do jogo financeiro. Por um lado, a maioria dos emissores precisa obter uma nota. Por outro, alguns investidores institucionais – seguradoras, fundos de pensão, fundos de investimento e poupança – precisam investir o essencial, quando não a totalidade de seus capitais em emissões com boas notas. Além disso, as instituições financeiras que se beneficiam das melhores notas são em geral submetidas a uma regulamentação menos rigorosa.

Apesar de teoricamente aberto a todos, o mercado de classificação se resume, fundamentalmente e com exceção de setores bem precisos, a um binômio formado pela Standard & Poor’s, filial da Editora McGraw-Hill, cujas origens remontam a 1860; e pela Moody’s, filial do grupo de informação financeira Dun & Bradstreet, fundada em 1900.7Essas duas empresas gozam de uma situação privilegiada que se anuncia de longo fôlego, já que um número sempre crescente de emissões deve ser classificado – a um valor de US$ 100 mil ou mais por emissão.

 Erros de avaliação

Nos anos 1990, a Moody’s e a Standard & Poor’s foram acusadas mais de uma vez de concorrência desleal e até de chantagem por emissores que passaram a preferir as pequenas agências. A eles, as duas gigantes atribuíam então notas “não solicitadas”, em geral desfavoráveis. Evidentemente não se tratava de uma sanção, mas de um “serviço público”, permitido pela primeira emenda da Constituição norte-americana, que garante o direito à livre expressão.8 Mas nem por isso o procedimento deixava de significar: “Pague, senão…”.

Segunda crítica: as agências de classificação cometem erros graves, de consequências incalculáveis. Em 1975, às vésperas de declarar moratória, a cidade de Nova York tinha uma nota favorável, por exemplo. Mas foi, sobretudo, por ocasião do desmoronamento do sistema financeiro, em 2008 e 2009, que as agências, que não tinham previsto absolutamente nada, caíram no ridículo: as grandes instituições financeiras ainda se beneficiavam do famoso triplo A apesar de estarem à beira do precipício, a exemplo dos famosos produtos subprime, promovidos à categoria de investimentos seguros, correspondendo ao perfil mais conservador. Mas nem por isso toda essa situação ridícula acabou com as agências. Ao contrário, o episódio tornou-as mais fortes do que nunca! Na verdade, os governos corriam atrás dessas instituições financeiras, pondo sua própria solvibilidade em risco, sob o olhar atento… das agências de classificação.

Pois o verdadeiro poder dessas agências provém da classificação dos Estados. Na verdade, desde 1990 – com a crise da dívida, o minguar da ajuda externa e dos empréstimos bancários, e as receitas neoliberais das organizações internacionais no cardápio –, o essencial do financiamento externo dos Estados se fez nos mercados de renda fixa (em resumo, o endividamento mais do que o imposto). Classificar as diferentes formas de dívida soberana de um país (em moeda nacional, em divisas etc.) equivale a avaliar o país em si (as empresas privadas nele instaladas são alvo de uma classificação separada, em geral ainda mais severa). Uma avaliação desfavorável não significa só o aumento do custo do financiamento. Na hora em que os tomadores de empréstimos privados e públicos se dedicam, em escala mundial, a uma concorrência ferrenha para conseguir e atrair capital, uma nota desfavorável também pode levar ao estrangulamento financeiro de um país do qual o mercado desconfia.

 Sem regulação

Se a leitura de um balanço de uma empresa anglo-saxã pode se prestar a procedimentos codificados e a análises clássicas, a classificação de um país, sobretudo em um contexto de incerteza praticamente total, é recheada de armadilhas e perigos. Somente uns poucos critérios são mensuráveis e quantificáveis, como ganho médio por habitante, aumento do PIB, inflação, dívida externa etc.; mas não a maioria dos critérios, como “boa gestão” da economia, perspectivas de longo prazo, estabilidade política etc. Mas, nesse domínio, as agências não parecem marcadas pelo signo da prudência. Assim, um país pode ter sua nota modificada de um dia para o outro ou passar à posição de “em estado de atenção”, em antecipação a um eventual rebaixamento. Esse tipo de aviso leva com frequência a uma mudança de política, com o objetivo de evitar a sanção financeira do(s) “mercado(s)”.

Extremamente preocupadas com a transparência, quando se trata do alvo das notas que atribuem, as próprias agências continuam, todavia, sendo bastante misteriosas. Seu poder exorbitante e seus abusos deveriam levar a um controle mais rigoroso de suas práticas e à procura de outro tipo de solução. Mas será que tais agências podem realmente ser controladas por outras instituições financeiras além dos governos… que elas vigiam com extrema atenção e bem de perto?

Ibrahim Warde é professor associado na Universidade Tufts (Medford, Massachusetts, EUA). Autor dePropagande impériale & guerre financière contre le terrorisme, Marselha-Paris, Agone – Le Monde Diplomatique, 2007.

Ilustração: Laura Teixeira

1 Le Figaro, Paris, 23 ago. 2011.
2 Benoît Hamon, Tourner la page [Virar a página], Flammarion, Paris, 2011.
3 Site do Nouvel Observateur (nouvelobs.com), 14 jan. 2012.
4 Le Journal du Dimanche, Paris, 15 jan. 2012.
5 Le Journal du Dimanche, 13 nov. 2011.
6 O rebaixamento da nota dos Estados Unidos não teve como consequência uma alta do custo da dívida norte-americana. Para alguns, isso se deve ao fato de que “os mercados” teriam antecipado amplamente esse rebaixamento. Para outros, ser rebaixado em um nível (de AAA para AA+) não poria em discussão a solvibilidade do país.
7 Ao lado das duas gigantes, há também sete anãs: Fitch Ratings (a maior delas), Kroll Bond Rating Agency, A. M. Best Company, Dominion Bond Rating Service, Japan Credit Rating Agency, Egan-Jones Rating Company e Morningstar.
8  Business Week, Nova York, 8 abr. 1996.

04 de Julho de 2012
Palavras chave: Europa, riscos, lucro, economia, mercados, finanças, crise, França, dívida, especulação,capitalismo, capital
Compartilhe:

O triunfo da paranóia

O triunfo da paranoia

FONTE CARTA CAPITAL

http://www.cartacapital.com.br/revista/787/o-triunfo-da-paranoia-8795.html

Economia

Análise / Delfim Netto

O triunfo da paranoia

A atual onda pessimista decorre da leitura parcial de relatórios que incluem todos os emergentes no mesmo saco de gatos
por Delfim Netto — publicado 19/02/2014 04:52
Em seu primeiro comparecimento perante os integrantes da Comissão de Serviços Financeiros da Câmara de Representantes no Congresso dos Estados Unidos, após assumir a presidência do Banco Central americano, a economista Janet Yellen disse que vai manter a política gradual de compras mensais de títulos, na forma definida pelo Comitê de Política Monetária (Fomc) do Federal Reserve, mesmo diante da “surpresa” representada pela redução no ritmo de criação de empregos em dezembro e janeiro últimos. Yellen deixou claro que somente perspectivas sérias de mudança na taxa de inflação e comprovadamente do nível de desemprego nos EUA poderiam mudar a estratégia do banco.

Na sua fala aos congressistas e para tristeza dos agentes financeiros que esperavam algum sopro que estimulasse a especulação nos mercados emergentes, Yellen deu pouca (ou nenhuma) importância ao assunto. Disse simplesmente que “a recente turbulência em emergentes não implica riscos para a economia dos Estados Unidos”. Quando instada a comentar o relatório do Fed que menciona “vulnerabilidades financeiras significativas” nesses mercados, inclusive no Brasil, em decorrência de mudanças na política monetária americana, respondeu secamente que a sua política é desenhada para atingir os objetivos determinados pelo Congresso dos Estados Unidos. Nada de novo.

O pessimismo que decorre da leitura parcial de relatórios dessa natureza, divulgados fora de época e em contextos ultrapassados, expõe o Brasil como uma das economias vulneráveis. Hoje, entretanto, o próprio mercado já distingue nossa atual situação de outros emergentes, como Turquia, Indonésia, Índia e África do Sul, que vivem circunstâncias totalmente diferentes.

Criou-se um clima de paranoia quase inacreditável tentando convencer o mundo de que o Brasil está próximo de um desastre, apesar da falsidade evidente das comparações. Temos dificuldades, como quase todos os países do mundo, há circunstâncias desagradáveis, perspectivas ameaçadoras desde que o sistema financeiro mundial entrou em erupção por conta do excesso de patifarias cometidas nos mercados financeiros, cujo epicentro foi Wall Street. As dificuldades persistem desde 2008 e 2009, nas políticas fiscal e monetária dos países grandes, médios e pequenos, praticamente sem exceção. Apenas na política cambial o mercado fez a correção.

Não existem no Brasil desequilíbrios profundos a curto e a longo prazo.  Estamos muito longe de apresentar o padrão de vulnerabilidade externa que tomou conta de algumas economias emergentes com suas dificuldades próprias de relacionamento nos mercados financeiros do resto do mundo. Creio que se justifica, neste contexto, a ida do ministro Guido Mantega à Austrália para se encontrar com seus colegas do G-20 em Sydney, na reunião das mais importantes economias do globo.

O Brasil desde há muito tempo superou aquelas dificuldades apontadas pelo mercado em relação a outros emergentes, listados no grupo dos mais vulneráveis. Não será difícil ao ministro Mantega mostrar os fatos que fazem a diferença, dando continuidade ao esforço que a presidenta Dilma fez há duas semanas na reunião dos dirigentes das finanças mundiais na cidade suíça de Davos. Sabemos que somos parte do mundo, que temos de pagar o preço de estar no mundo. E que poderíamos ter feito muito melhor em diversas ocasiões. Não temos de fazer, contudo, nenhuma penitência em razão das medidas de defesa tomadas para enfrentar as turbulências (com sucesso, diga-se) produzidas pelas sucessivas crises dos mercados financeiros.

Mesmo diante das pressões provocadas pelo clima de desconfiança que se procura estimular em relação ao Brasil, nós temos tempo suficiente para mostrar sermos capazes de administrar com prudência uma política fiscal crível como prometeu a presidenta. A ida agora de Mantega a Sydney dará continuidade a esse esforço de convencer a comunidade financeira e os governantes mundiais de que o Brasil está no caminho certo, determinado a fazer o ajuste fiscal necessário, mesmo que muitos descreiam dessa possibilidade num ano de eleições gerais.

O canibalismo comunista da Veja

O canibalismo comunista da Veja

Juremir Machado: O canibalismo comunista da Veja

publicado em 2 de junho de 2013 às 9:40

O canibalismo comunista da Veja

Postado por Juremir Machado da Silva, em 24 de maio de 2013, no Correio do Povo, sugerido pelos leitores Permanente e Aroeira

Praticamente nenhuma pessoa séria leva a revista Veja a sério. Sabe-se que é uma publicação humorística. Faz um humor meio sem graça, apelativo, rasteiro, como é o humor dominante na mídia brasileira atual. Mas há um traço de original nesse humor: ele é ideológico.

Nesta semana, porém, Veja caprichou no ridículo. O texto “Os ossos do socialismo” é uma obra-prima de charlatanismo, de reacionarismo delirante e de besteirol histórico. Segundo o repórter, que assina a matéria, há uma relação direta entre canibalismo e comunismo. Em 1609, os primeiros colonos ingleses instalados em Jamestown, na América, loucos de fome, comeram os seus semelhantes.

Arqueólogos descobriram os ossos de Jane, vítima do canibalismo dos seus parceiros de aventura no Novo Mundo. A revista Veja não tem a menor dúvida: “Jane foi devorada por seus pares como consequência do fracasso do modelo de produção coletiva implantado nos primeiros anos da colonização dos Estados Unidos. A propriedade era comunitária, e o fruto do trabalho era dividido igualmente entre todos. Era, portanto, uma experiência que antecipava os princípios básicos do comunismo. Deu no que deu”.

Uau! A cadeia estabelecida é imperativa: o coletivismo levou à preguiça, que levou à improdutividade, que levou à fome, que levou ao canibalismo. A saída viria com a propriedade privada. É reportagem para prêmio Esso de estupidez. Longe de mim defender o comunismo. O buraco é mais embaixo. Vejamos.

O autor tem a segurança dos tolos encantados com o lugar que ocupam na escala social: “Se não fosse o sistema fracassado, a situação dificilmente teria chegado a esse ponto”.

Todos os demais aspectos de adaptação e de conjuntura são desconsiderados. O reducionismo ideológico surge como uma iluminação. A solução chega com um novo administrador, que impõe à propriedade privada: “A decisão despertou os traços hoje bem conhecidos do capitalismo americano: o empreendedorismo e a aptidão para a competição”. Disso teria decorrido que, em 1775, os americanos “já eram mais altos que os ingleses”.

Tem gente batendo os dentes nos consultórios de dentista, onde Veja é campeã de leitura, de tanto rir. É um riso nervoso.

Nem os primatas do Pânico fariam melhor.

Para a pragmática revista Veja, no coletivismo, entre trabalhar e comer seus semelhantes, as pessoas escolhem a segunda opção. Um colono comeu a esposa grávida. Veja, enfim, descobriu a origem da expressão “comunista comedor de criancinha”.

Na verdade, encontrou algo mais grave, o comunista comedor de feto. Sem contar que Duda Teixeira chegou ao elo perdido, a origem sempre procurada do capitalismo, o estalo: “Foi essa mudança, nascida do trauma de um inverno em que colonos caíram na selvageria que permitiu aos Estados Unidos se tornar o maior gerador de riqueza do planeta e o berço do capitalismo moderno”. O capitalismo nada mais é que uma reação ao canibalismo comunista. Agora é científico.

Não fosse grosseiro, eu diria: é a coisa mais idiota que li.

A sociedade consumista

A sociedade consumista

FONTE: INFORME E CRÍTICA

http://informecritica.blogspot.com.br/2010/07/sociedade-consumista_28.html

A Sociedade Consumista
Nildo Viana
O consumo na sociedade moderna significa, fundamentalmente, compra de mercadorias. O consumo não é um “dado”, é um fenômeno social e histórico. Ele é produto de um longo processo histórico que marca a passagem do feudalismo para o capitalismo. No feudalismo, a produção de bens materiais é produção de valores de uso, voltados para auto-subsistência. No capitalismo, a produção de mercadorias se generaliza, transformando tudo em mercadoria, objetos de consumo. Ocorre, assim, a separação entre trabalhador e meios de produção e entre unidade de produção e de consumo. A emergência da produção de mais-valia proporciona lucro e é a razão de ser para a produção de mercadorias. Isso gera a dinâmica da reprodução ampliada do capital: a produção gera lucro, que é reinvestido e gera mais lucro, sucessivamente, o que cria o processo de concentração e centralização do capital, gerando os oligopólios que depois se tornam transnacionais. O capitalismo se torna mundial e transforma tudo em mercadoria.
Essa reprodução ampliada do capital vai gerar a necessidade da reprodução ampliada do mercado consumidor. Isso ocorre através da transformação de indivíduos não-consumidores em consumidores ou da elevação do consumo individual. Esse processo se intensifica cada vez mais e por isso alguns sociólogos vão cunhar o termo “sociedade de consumo” a partir do pós-Segunda Guerra Mundial. Estratégias de produção de “necessidades fabricadas”, obsolescência planejada das mercadorias, modas, publicidade, são algumas das formas de aumentar o consumo individual. O constrangimento ao consumo se revela até em mercadorias que tornam necessário a aquisição de mercadorias complementares (é o caso do computador e até do hamster: ração-gaiola-remédio-etc.). O consumo vital – de bens necessários para a vida – vai ser reforçado pelo “consumo conspícuo” (Veblen), o consumo de bens supérfluos, em busca de ostentação, status.
Marx afirmou que “a produção cria o consumo” e é por isso que a sociedade produtivista vai gerar o homo consumens (Fromm) e a sociedade consumista, bem como outros problemas derivados (destruição ambiental, lixo). Emerge, assim, o consumismo compulsivo – produto da pressão social, da publicidade, da valoração do ter ao invés do ser, etc.,– e o impulsivo – gerado pela insatisfação com uma sociedade fundada na futilidade e vazio, provocando a busca descontrolada e obsessiva do consumo, como forma de “satisfação substituta” (Freud).
Assim, o consumo compulsivo e impulsivo não satisfaz as necessidades humanas e se torna um fim em si mesmo e por isso o par produtivismo-consumismo deve ser superado e uma nova forma de sociedade deve ocupar o seu lugar, substituindo a busca do lucro pela satisfação das necessidades humanas autênticas.
—————————————————————————————–
Artigo publicado originalmente no Jornal da UFG, Ano V, num. 37, Junho de 2010.
Postado por às 11:37

Contra os clichês econômicos dos Estados Unidos

FONTE CARTA MAIOR

http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia%2FContra-os-cliches-economicos-dos-Estados-Unidos%2F7%2F30510

 

Contra os clichês econômicos dos Estados Unidos

É fácil e mesmo divertido argumentar a respeito de ideias. É muito mais difícil argumentar a respeito de fatos. E Piketty nos dá fatos para argumentar.


Divulgação

O Capital no Século XXI foi escrito na tradição dos grandes textos econômicos. Onde John Maynard Keynes escreveu A Teoria Geral do Emprego, do Lucro e do Dinheiro, em resposta aos “economistas clássicos” e Karl Marx escreveu O Capital em resposta aos “economistas burgueses”, Thomas Piketty escreve em resposta aos “economistas dos EUA”. Como seus antecessores, ele não mede palavras. Depois de dar aulas no MIT aos 22 anos, ele voltou a Paris aos 25, em 1995, dizendo: “não achei o trabalho dos economistas estadunidenses muito convincente”.

O método de Piketty é uma crítica explícita aos acadêmicos “preocupados demais com problemas matemáticos insignificantes, de interesse apenas para eles mesmos”. Embora as ferramentas da matemática sejam elementos de importância fundamental para a moderna profissão da economia, Piketty está certo ao chamar a todos os cientistas sociais, inclusive os economistas, a “começarem com as questões fundamentais e tentar respondê-las”.

Piketty faz duas questões fundamentais no seu novo livro: “O que realmente sabemos a respeito de como a riqueza e a renda evoluíram, desde o século XVIII, quais as lições que podemos obter desse conhecimento para o século atual?”.

Piketty e seus colegas passaram os últimos anos reunindo um banco de dados da renda mundial, sua investigação detalhada na renda dos países ao redor do globo, abrangendo várias décadas. Em alguns casos – França e Reino Unido – ele também sustenta a análise em fatos relacionados à acumulação de riqueza ao longo de séculos. Como ele diz, “foi pacientemente estabelecendo fatos e padrões e então comparando diferentes países que pudemos identificar os mecanismos em operação e ganhar, assim, uma ideia clara do futuro”.

Informado por uma base de dados histórica e transnacional, Piketty avalia – e rejeita – uma série de conclusões geralmente aceitas no pensamento econômico, embora admita, cuidadosamente, as limitações inevitáveis das fontes “imperfeitas e incompletas”. O principal achado de sua investigação é que o capital ainda importa. Os dados mostram um ressurgimento recente nos países desenvolvidos da importância do rendimento de capital em relação à renda nacional, de volta a níveis vistos pela última vez antes da Primeira Guerra Mundial.

Na análise de Piketty, sem um crescimento econômico rápido – que ele argumenta ser altamente improvável agora, que o crescimento populacional está se tornando mais lento – retornos de investimentos continuarão a crescer mais rápido do que os da produção. As desigualdades de heranças e de renda continuarão crescentes, possivelmente em níveis jamais vistos anteriormente.

Dentre outras conclusões, os dados levam Piketty a descrever o argumento popular segundo o qual vivemos numa era de nossos talentos e capacidades importando mais como “otimismo irracional”. Os dados também o levam a rejeitar a ideia de que a desigualdade de salário cresceu na medida em que a mudança tecnológica aumentou a demanda por trabalhadores altamente qualificados e bem educados.

Em vez disso, a evidência de Piketty sugere que é a ascensão do que ele chama de “supercomando” dos 1%, desde 1980, que está impulsionando o aumento da desigualdade de renda. É aqui que Piketty dá o golpe mais sério nos economistas.

Na sua discussão sobre os prósperos 1%, ele observa que “dentre os membros dos grupos dos super ricos, estão economistas acadêmicos, muitos dos quais acreditam que a economia dos EUA está funcionando muito bem e, em particular, que ela recompensa os talentos e os méritos acurada e precisamente. Esta é uma reação humana muito compreensível”. Piketty concorda que, no longo prazo, os investimentos em educação são um componente importante para qualquer plano voltado à redução das desigualdades no mercado de trabalho e para a melhoria da produtividade. Mas por si sós, eles não são suficientes.

Este livro é importante pelos seus achados, assim como pelo modo como Piketty neles chega.  É fácil – e divertido – argumentar a respeito de ideias.  É muito mais difícil argumentar a respeito de fatos. E fatos é o que Piketty nos dá, ao passo que pressiona o leitor a se engajar na jornada de suas implicações.

(*) Heather Marie Boushey é diretora executiva do Washington Center for Equitable Growth e integra o Center for American Progress, um think tank dos EUA. Artigo publicado na The American Prospect.

István Mészàros, “A dominação do capital e a exploração da classe trabalhadora”

FONTE: https://www.facebook.com/notes/171923762826692/

Entrevista a István Mészàros: “A dominação do capital e a exploração da classe trabalhadora não podem continuar para sempre.”

Em entrevista à revista inglesa Socialist Review, István Mészàros, um dos principais pensadores marxistas da atualidade, analisa a crise econômica mundial e critica aqueles que apostam que ela será resolvida trazendo de volta as idéias keynesianas e a regulação. “É uma fantasia que uma solução neo-keynesiana e um novo Bretton Woods resolveriam qualquer dos problemas dos dias atuais”, defende Mészàros. Para ele, estamos vivendo a maior crise na história humana, em todos os sentidos.

 – A classe dominante sempre é surpreendida por crises econômicas e fala delas como fossem aberrações. Por que você acha que as crises são inerentes ao capitalismo?

Eu li recentemente Edmund Phelps, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia, em 2006. Phelps é um tipo de neokeynesiano. Ele estava, é claro, glorificando o capitalismo e apresentando os problemas atuais como apenas um contratempo, dizendo que “tudo o que devemos fazer é trazer de volta as idéias keynesianas e a regulação.”

John Maynard Keynes acreditava que o capitalismo era ideal, mas queria regulação. Phelps estava reproduzindo a idéia grotesca de que o sistema é como um compositor musical. Ele pode ter alguns dias de folga nos quais não pode produzir tão bem, mas se você olhar no todo verá que ele é maravilhoso! Pense apenas em Mozart – ele deve ter tido o velho e esquisito dia ruim. Assim é o capitalismo em crise, como dias ruins de Mozart. Quem acredita nisso deveria ter sua cabeça examinada. Mas, no lugar de ter sua cabeça examinada, ele ganhou um prêmio.

 Se nossos adversários têm esse nível de pensamento – o qual tem sido demonstrado, agora, ao longo de um período de 50 anos, não é apenas um escorregão acidental de economista vencedor de prêmio – poderíamos dizer, “alegre-se, esse é o nível baixo do nosso adversário”. Mas com esse tipo de concepção você termina no desastre de que temos experiência todos os dias. Nós afundamos numa dívida astronômica. As dívidas reais neste país (Inglaterra) devem ser contadas em trilhões.

Mas o ponto importante é que eles vêm praticando orgias financeiras como resultado de uma crise estrutural do sistema produtivo. Não é um acidente que a moeda tenha inundado de modo tão adventista o setor financeiro. A acumulação de capital não poderia funcionar adequadamente no âmbito da economia produtiva.

Agora estamos falando da crise estrutural do sistema. Ela se extende por toda parte e viola nossa relação com a natureza, minando as condições fundamentais da sobrevivência humana. Por exemplo, de tempos em tempos anunciam algumas metas para diminuir a poluição. Temos até um ministro da energia e da mudança climática, que na verdade é um ministro do lero lero, porque nada faz além de anunciar uma meta. Só que essa meta nunca é sequer aproximada, quanto mais atingida. Isso é uma parte integral da crise estrutural do sistema e só soluções estruturais podem nos tirar desta situação terrível.

– Você descreveu os EUA como levando a cabo um imperialismo de cartão de crédito. O que você quer dizer com isso?

 Eu lembro do senador norte-americano George McGovern na guerra do Vietnã. Ele disse que os EUA tinham fugido da guerra do Vietnã num cartão de crédito. O recente endividamento dos EUA está azedando agora. Esse tipo de economia só avança enquanto o resto do mundo pode sustentar sua dívida.

Os EUA estão numa posição única porque tem sido o país dominante desde o acordo de Bretton Woods. É uma fantasia que uma solução neokeynesiana e um novo Bretton Woods resolveriam qualquer dos problemas dos dias atuais. A dominação dos EUA que Bretton Woods formalizou imediatamente depois da Segunda Guerra era realista economicamente. A economia norte-americana estava numa posição muito mais poderosa do que qualquer outra economia do mundo. Ela estabeleceu todas as instituições econômicas internacionais vitais com base no privilégio dos EUA. O privilégio do dólar, o privilégio aproveitado pelo Fundo Monetário Internacional, pelas organizações comerciais, pelo Banco Mundial, todos completamente sob a dominação dos EUA, e ainda permanece assim hoje.

Não se pode fazer de conta que isso não existe. Você não pode fantasiar reformas e regulações leves aqui e acolá. Imaginar que Barack Obama vai abandonar a posição dominante de que os EUA dispõe, nesse sentido – apoiada pela dominação militar – é um erro.

– Karl Marx chamou a classe dominante de “bando de irmãos guerreiros”. Você acha que a classe dominante vai trabalhar junta, internacionalmente, para encontrar uma solução?

No passado o imperialismo envolveu muitos atores dominantes que asseguraram seus interesses mesmo às custas de duas horrendas guerras mundiais no século XX. Guerras parciais, não importa o quão horrendas são, não podem ser comparadas ao realinhamento do poder e da economia que seria produzido por uma nova guerra mundial.

Mas imaginar uma nova guerra mundial é impossível. É claro que ainda há alguns lunáticos no campo miliar que não negariam essa possibilidade. Mas isso significaria a destruição total da humanidade.

Temos de pensar as implicações disso para o sistema capitalista. Era uma lei fundamental do sistema que se uma força não pudesse ser assegurada pela dominação econômica você recorreria à guerra.

O imperialismo global hegemônico tem sido conquistado e operado com bastante sucesso desde a Segunda Guerra Mundial. Mas esse tipo de sistema é permanente? É concebível que nele não surjam contradições, no futuro?

Algumas pistas vem sendo dadas pela China de que esse tipo de dominação econômica não pode avançar indefinidamente. A China não será capaz de seguir financiando isso. As implicações e consequencias para a China já são bastante significantes. Deng Xiaoping uma vez disse que a cor do gato – seja ele capitalista ou socialista – não importa, desde que ele pegue o rato. Mas e se, no lugar da caçada feliz do rato se termine numa horrenda infestação de ratos de desemprego massivo? Isso está acontecendo agora na China.

Essas coisas são inerentes nas contradições e antagonismos do sistema capitalista. Portanto, temos de pensar em resolvê-los de uma maneira radicalmente diferente, e a única maneira é uma genuína transformação socialista do sistema.

– Não há em parte alguma do mundo econômico desacoplamento dessa situação?

Impossível! A globalização é uma condição necessária do desenvolvimento humano. Desde que o sistema capitalista se tornou claramente visível Marx teorizou isso. Martin Wolf, do Financial Times tem reclamado de que há muitos pequenos, insignificantes estados que causam problemas. Ele argumenta que seria preciso uma “integração jurisdicional”, em outras palavras, uma completa integração imperialista – um conceito fantasia. Trata-se de uma expressão das contradições e antagonismos insolúveis da globalização capitalista. A globalização é uma necessidade, mas a forma em que é exequível e sustentável é a de uma globalização socialista, com base nos princípios socialistas da igualdade substantiva.

Ainda que não haja desacoplamento na história do mundo, é concebível que isso não signifique que em toda fase, em todas as partes do mundo, haja uniformidade. Muitas coisas diferentes estão se desenvolvendo na América Latina, em comparação com a Europa, para não mencionar o que eu já assinalei sobre a China, o Sudeste Asiático e o Japão, que está mergulhado em problemas mais profundos.

 Vamos pensar no que aconteceu há pouco tempo. Quantos milagres tivemos no período do pós-guerra? O Milagre Alemão, o Milagre Brasileiro, o Milagre Japonês, o Milagre dos cinco Tigres Asiáticos? Engraçado que todos esses milagres tenham se convertido na mais terrível realidade prosaica. O denominador comum de todas essas realidades é o endividamento desastroso e a fraude.

Um dirigente de um fundo hedge foi supostamente envolvido numa farsa envolvendo 50 bilhões de dólares. A General Motors e outras estavam pedindo ao governo norte-americano somente 14 bilhões de dólares. Que modesto! Eles deveriam ter dado 100 bilhões. Se um fundo hedge capitalista pode organizar uma suposta fraude de 50 bilhões, eles devem chegar a todos os fundos possíveis.

Um sistema que opera nesse modo moralmente podre não pode provavelmente sobreviver, porque é incontrolável. As pessoas chegam a admitir que não sabem como isso funciona. A solução não é desesperar-se, mas controlá-lo em nome da responsabilidade social e de uma radical transformação da sociedade.

– A tendência inerente do capitalismo é exigir dos trabalhadores o máximo possível, e isso é claramente o que os governos estão tentando fazer na Grã Bretanha e nos EUA.

A única coisa que eles podem fazer é advogar pelos salários dos trabalhadores. A razão principal pela qual o Senado recusou a injetar 14 bilhões de dólares nas três maiores companhias de automóveis é que não puderam obter acordo sobre a drástica redução dos salários. Pense no efeito disso e nos tipos de obrigações que esses trabalhadores têm – por exemplo, repagando pesadas hipotecas. Pedir-lhes que simplesmente passem a receber metade de seus salários geraria outros tipos de problemas na economia – de novo, a contradição.

 Capital e contradições são inseparáveis. Temos de ir além das manifestações superficiais dessas contradições e de suas raízes. Você consegue manipulá-las aqui e ali, mas elas voltarão com uma vingança. Contradições não podem ser jogadas para debaixo do tapete indefinidamente, porque o carpete, agora, está se tornando uma montanha.

 – Você estudou com Georg Lukács, um marxista que retomou o período da Revolução Russa e foi além.

 Eu trabalhei com Lukács sete anos, antes de deixar a Hungria em 1956 e nos tornamos amigos muito próximos até a sua morte, em 1971. Sempre nos olhamos nos olhos – é por isso que eu queria estudar com ele. Então aconteceu que quando eu cheguei para estudar com ele, ele estava sendo feroz e abertamente atacado, em público. Eu não aguentei aquilo e o defendi, o que levou a todos os tipos de complicações. Logo que deixei a Hungria, fui designado sucessor, na universidade, ensinando estética. A razão pela qual deixei o país foi precisamente porque estava convencido de que o que estava acontecendo era uma variedade de problemas muito fundamentais que o sistema não poderia resolver.

Eu tentei formular e examinar esses problemas em meus livros, desde então. Em particular em “A Teoria Alienação em Marx” e “Para Além do Capital” (*). Lukács costumava dizer, com bastante razão, que sem estratégia não se pode ter tática. Sem uma perspectiva estratégica desses problemas você não pode ter soluções do dia-a-dia. Então eu tentei analisar esses problemas consistentemente, porque eles não podem ser simplesmente tratados no nível de um artigo que apenas relata o que está acontecendo hoje, ainda que haja uma grande tentação de fazê-lo. No lugar disso, deve ser apresentada uma perspectiva histórica. Eu venho publicando desde que meu primeiro ensaio justamente substancial foi publicado, em 1950, num periódico literário na Hungria e eu tenho trabalhado tanto como posso, desde então. À medida de nossos modestos meios, damos nossa contribuição em direção da mudança. Isso é o que tenho tentado fazer ao longo de toda minha vida.

 – O que você pensa das possibilidades de mudança neste momento?

 Os socialistas são os últimos a minimizar as dificuldades da solução. Os apologistas do capital, sejam eles neokeynesianos ou o que quer que sejam, podem produzir todos os tipos de soluções simplistas. Eu não penso que podemos considerar a crise atual simplesmente da maneira que o fizemos no passado. A crise atual é profunda. O diretor substituto do Banco da Inglaterra adimitiu que esta é a maior crise econômica na história da humanidade. Eu apenas acrescentaria que esta não é apenas a maior crise na história humana, mas a maior crise em todos os sentidos. Crises econômicas não podem ser separadas do resto do sistema.

 A fraude e a dominação do capital e a exploração da classe trabalhadora não podem continuar para sempre. Os produtores não podem ser postos constantemente e para sempre sob controle. Marx argumenta que os capitalistas são simplesmente personificações do capital. Não são agentes livres; estão executando imperativos do sistema. Então, o problema da humanidade não é simplesmente vencer um bando de capitalistas. Pôr simplesmente um tipo de personificação do capital no lugar do outro levaria ao mesmo desastre e cedo ou tarde terminaríamos com a restauração do capitalismo.

Os problemas que a sociedade está enfrentando não surgiram apenas nos últimos anos. Cedo ou tarde isso tem de ser resolvido e não, como o vencedor do Prêmio Nobel deve fantasiar, no interior da estrutura do sistema. A única solução possível é encontrar a reprodução social com base no controle dos produtores. Essa sempre foi a idéia do socialismo.

Nós alcançamos os limites históricos da capacidade do capital controlar a sociedade. Eu não quero dizer apenas bancos e instituições financeiras, ainda que eles não possam controlá-las, mas o resto. Quando as coisas dão errado ninguém é responsável. De tempos em tempos os políticos dizem: “Eu aceito total responsabilidade”, e o que acontece? Eles são glorificados. A única alternativa exequível é a classe trabalhadora, que é a produtora de tudo o que é necessário em nossa vida. Por que eles não deveriam controlar o que produzem? Eu sempre enfatizei em todos os livros que dizer não é relativamente fácil, mas temos de encontrar a dimensão positiva.

[Entrevista tirada do sitio web brasileiro ‘Agência Carta Maior’, do 7 de febreiro de 2009]

 

Os pobres são sempre os “outros”…

Fonte: História Hoje

http://historiahoje.com/?p=4769

Os pobres são sempre os “outros”…

Uma colunista de O Globo tem causado alvoroço nas redes sociais devido a um texto em que ela ironiza os “pobres”. Segundo a moça, em uma tentativa infeliz de fazer humor, “pobre” adora ficar doente para frequentar laboratórios e consultórios médicos. E “eles” fazem milhões de exames e consultas, já que o “convênio cobre”, ainda de acordo com a autora. São tão preguiçosos, que basta tirar sangue para querer faltar no trabalho, afirma. Mas, quem são “eles”, os “pobres”, essa turba que teria resolvido invadir espaços antes dominados pelo bom gosto e fina educação? E de onde vem esse desprezo pelos brasileiros economicamente inferiores?

Quando estudamos um pouco da História do Brasil, observamos que, desde os primórdios da nossa sociedade, a forte hierarquização moldou um pensamento, que parece persistir até hoje, de que é preciso se distanciar dos elementos inferiores. É preciso diferenciar-se, marcar os limites entre as classes de forma clara, sem que haja espaço para dúvida. Os escravos, que estavam no nível mais baixo da escala social, sofriam uma série de restrições, inclusive quanto ao vestuário. Não podiam usar sapatos, nem tecidos finos ou determinados tipos de joias.

E os homens e mulheres livres e pobres, que faziam trabalhos braçais ou mecânicos, como se dizia então, também estavam sujeitos a normas rígidas. Nas Cartas do Senado da Bahia, entre vários assuntos, percebe-se que os vereadores estavam preocupados em fiscalizar “os maus costumes de trajes desonestos e danças lascivas”.  Em 15 de dezembro de 1708, os zelosos legisladores pediam que fosse instituída uma norma proibindo as negras cativas e forras, e todos os negros e mulatos, de usarem sedas e outros tecidos finos, joias, brocados e adereços de ouro, “pelo bem público, reconhecendo quanto a este prejudica o excesso e luxo com que os negros e mulatos se vestem nesta terra, pois deles nascem os roubos e insultos […]”. 

Além de detalhar o que negros e mulatos poderiam vestir, o Senado ainda tentava normatizar os modos das prostitutas e homens do povo, destacando que estes só poderiam utilizar redes para serem transportados, sendo-lhes proibidas as liteiras fechadas e ornamentadas com riqueza. “[…] que as mulheres meretrizes e homens mecânicos não andem em serpentinas, mas só possam usar redes descobertas os homens, e com alcatifas (tapetes) as meretrizes […]”.  Note-se que os chamados homens bons do Senado colocaram no mesmo nível vários elementos da “arraia-miúda”, porém respeitando a hierarquia.

Um grupo que desafiava, de certa forma, as regras vigentes era o dos forros ou alforriados, ex-escravos que tinham conseguido comprar sua liberdade ou a tinham recebido de seus senhores. Muitas mulheres nessa situação tinham a proteção de senhores ricos (o caso mais famoso foi de Chica da Silva), o que incomodava a alta sociedade. Elas frequentavam missas e outros locais, levadas por escravos em suas cadeirinhas luxuosas e vestidas como qualquer senhora branca.  O governador de Minas, em 1732, Conde Gouveia, achava um absurdo assistir ao desfile das “atrevidas” mulheres “de cor”, no Tejuco, entrando “na casa de Deus com vestidos ricos e pomposos e totalmente alheios e impróprios de suas condições”.

Ou seja, na sociedade brasileira sempre se hostilizou aqueles que “não sabem o seu lugar”. Nesse contexto, paradoxalmente, não é de se estranhar que os pobres e forros se esforçassem para juntar algum dinheiro para comprar escravos (nem que fosse apenas um), tecidos finos (mesmo de segunda mão) ou joias. Ninguém queria estar estigmatizado como pertencente à camada mais baixa da hierarquia, todos sonhavam em ser aceitos e faziam de tudo para se diferenciar daqueles que estão abaixo. Os “pobres” são sempre os outros…

Em resumo, a jornalista nada mais fez do que retomar velhos preconceitos que, infelizmente, ainda ouvimos com uma frequência assustadora. Muita gente, como ela, continua a acreditar que se todos ficassem humildemente na sua posição, as coisas funcionariam muito melhor no Brasil: Os pobres que voltem aos serviços públicos de saúde  que é o lugar a que eles pertencem. E aproveitem e desocupem os aeroportos, shoppings e praias…Triste, mas a mensagem é essa.

– Márcia Pinna Raspanti.

 

misssadbliteirablog

Senhoras e escravos (ambas de Debret).

A economia da mudança climática na América Latina e Caribe 2014

Publicado em 7 de dez de 2014

A América Latina e o Caribe geram somente 9% das emissões poluentes do planeta, segundo dados de 2011, mas é particularmente vulnerável a seus efeitos, especialmente na América Central e no Caribe.
A mudança climática exige que atuemos agora, diz na CEPAL neste vídeo.