O país da água (com gráficos)

FONTE: CONEXÃO ISRAEL

http://www.conexaoisrael.org/o-pais-da-agua/2014-05-15/amir

O país da água

Como Israel venceu um dos seus maiores desafios e transformou-se em uma nação com excesso de recursos hídricos?

Uma fonte de problemas políticos e econômicos

Desde antes da criação do Estado, a questão do abastecimento de água esteve na pauta de prioridades das lideranças sionistas. Um dos motivos da criação dos livros brancos na época do mandato britânico, que restringiam à imigração de judeus a terra de Israel na época do Ishuv, foi o relatório escrito peloexpert em agricultura, Sir John Hope Simpson, que apontava para um gargalo no suprimento de água na região, impedindo assim qualquer aumento populacional, sob pena de uma total escassez de recursos hídricos para seus habitantes.

A apreensão apenas se intensificou após 1948. Em menos de dez anos, a população do país mais do que duplicou e a falta de suprimento de água figurava entre os principais desafios do recém-criado estado.

O tempo passou, mas o desafio continuava. O desenvolvimento agrícola restringia-se de acordo com as possibilidades do país – a escolha do tipo de produto agrícola dependia da quantidade de água necessária para o seu plantio. A disputa pelos recursos hídricos serviu de fonte de atritos políticos tanto com a Síria, como com a Jordânia. Inclusive, a disputa pela água do rio Jordão foi um dos principais motivos causadores da Guerra dos Seis Dias. Ou seja, a água era tanto um problema estratégico interno que limitava o desenvolvimento econômico, como uma fonte reincidente de atritos com os países vizinhos.

imagem kineret

Se a demanda aumenta…

Sir John Hope Simpson tinha razão em dizer que o aumento da demanda tornaria inviável a questão hídrica no país, mas ele errou em acreditar que a oferta de água se manteria estática.

Havia espaço para novas fronteiras tecnológicas. A revolução teve origem na utilização de duas novas fontes de água não consideradas previamente: a água tratada do esgoto e a água proveniente do processo de dessalinização.

O gráfico 1 nos mostra a evolução da quantidade de água tratada por esgoto (reutilizada para fins agrícolas) e a água obtida por meio do processo de dessalinização em 1990, 2000, 2010 e 2011.

 grafico1

Por falta de dados mais detalhados para todas as categorias, não expus as quantidades atuais, mas estima-se que em 2013, as plantas de dessalinização já detém o potencial de produzir 505 milhões de metros cúbicos (mais que o dobro do que está apontado no gráfico para o ano de 2011). Uma revolução. O avanço tecnológico se deu por conta de um grande investimento do governo em plantas de dessalinização, mesmo quando estas ainda eram economicamente inviáveis.

Na última década, beneficiados pela descoberta de campos de gás natural – fato este que torna menos custosa a produção de água por este método, reconhecido por seu altíssimo consumo de energia – os israelenses passaram a contar com uma fonte segura de abastecimento. Estima-se que o custo baixou de $1 por metro cúbico para $0.40, ou até menos nas plantas mais modernas.

Paralelamente, Israel criou um esquema de tratamento de água de esgoto para fins agrícolas que está entre os mais desenvolvidos do mundo. Como pode ser visto no gráfico 2, a partir de 2011 o uso deste tipo de água foi maior que o uso de água doce na agricultura. A utilização deste recurso tem dois benefícios simultâneos: introduz uma nova e importantíssima fonte de água para o país e reduz a necessidade do uso de fertilizantes, já que a água reciclada já contém diferentes nutrientes que ajudam no enriquecimento do solo.

grafico2

As consequências

Da mesma forma que no campo político, a questão da água passou de motivos de guerra para a assinatura de acordos de paz com os jordanianos, a receita pode repetir-se agora que Israel goza de um saldo de recursos. Este superávit pode ser uma importante moeda de troca em uma região em que a água ainda é escassa e disputada. Se não diretamente, a elaboração de projetos de cooperação em conjunto com países vizinhos pode vir a ser um fator essencial na criação de uma utópica (hoje em dia!) integração regional.

Gráfico 3 – Variação do nível da água do lago Kineret

A linha vermelha de baixo representa o limite inferior: o momento de preocupação do israelense

Enquanto isso, a população segue observando atentamente o nível de água do lago Kineret (gráfico 3). Anos de poucas chuvas são marcados por apreensão, enquanto anos chuvosos ainda são comemorados. A cultura por aqui continua a mesma, seja por desconhecimento, seja por tradição.

Particularmente, não acredito que a população mudará seu comportamento, já que esta cultura de valorização dos recursos hídricos passou a ser uma marca da sociedade – ela está enraizada no pensamento do israelense.

Mas mais importante que isso, a história da água apresenta uma característica ainda mais marcante desta sociedade. Característica esta que foi a responsável pela idealização, criação e segue hoje sendo um pilar básico da continuação deste Estado: a exímia capacidade de transformar desafios em oportunidades.

Fontes:

http://www.haaretz.com/news/national/1.570374

http://www.water.org.il/

http://www.mekorot.co.il/HEB/WATERRESOURCESMANAGEMENT/CONSUMEDATA/Pages/default.aspx

http://www.mekorot.co.il/Heb/articles/Pages/Kinneret.aspx

www.cbs.gov.il

Livro de ouro da agricultura e colonização – Editado pelo jornal Maariv, 2012

A pitonisa

 

O homem, após seu banho ritual, com a preocupação a roer sua alma, finalmente colocou-se em posição para perguntar à Pitonisa. Com gravidade, perguntou, mas não obteve resposta. Ele não acreditou no silêncio, mas o tempo havia terminado e com ele as possibilidades de obter o que desejava. De repente, havia um peso em sua alma, e um coração que se negava a aceitar o que acontecera. O momento já passara, e tudo parecia estar caminhando rápido demais.

Já na estrada que o afastava de Delfos, seus pensamentos não o abandonavam. Afinal, não tinha sido digno de receber uma resposta? Afinal, o que ocorrera, buscando uma alternativa que pudesse aplacar a sua angústia. Quanto tempo, quantos sacrifícios e angústias o acompanhariam até que houvesse uma nova oportunidade ou o Destino encaminhasse o que o levava em turbilhão até Delfos?

A cidade sagrada já estava há pelo menos três horas de distância quando a estrada tornou-se um manto noturno, sem que ele percebesse, absorto que estava em suas inquietações. De súbito um vento congelante alcançou-o e com ele a Morte. Entendeu, por fim, porque a resposta não viera, mas nada poderia fazer, nenhuma alternativa o alcançaria.  Àquela altura, a insensível  Átropos já havia cortado o fio de sua vida. HILTON BESNOS

Amizades, como os vinhos, maturam

Tem amizades que, durante algum tempo (ou muito) ficam em stand by. Isso: ficam ali por perto, esperando serem ativadas; se não forem, vão ficar insensíveis, esperando que o sentimento que as mantém ligadas colapse de vez. Essas são amizades que estão contingenciadas a determinadas passagens e cenários de nossas vidas; são aquelas da época da escola, da época em que trabalhamos aqui ou ali, dos momentos mais ou menos marcantes em que tais ou quais pessoas estavam mais ou menos próximas. Significa que a proximidade continua? Não, mas sim que ela pode ser resgatada em razão da significância dos momentos em que privamos dessa amizade ou, simplesmente, pela nossa memória, que passa a buscar pessoas importantes em determinados eventos em nossa vida. No entanto, se a amizade está em stand by, nem sempre isso é possível, pois os cenários mudam e talvez obtenhamos, tão-só, uma cordialidade um pouco mais atenciosa, mais saborosa, mas não mais a intimidade plena que é requisito para a amizade verdadeira.

A amizade requer, especialmente, renúncia, interesse na outra pessoa pelo que ela é, compreensão, e mesmo oposições. Podemos ser duros com nossos amigos: eles entenderão, mesmo que sejam dispensáveis as palavras. Há uma sinergia presente, há um doar constante, há uma cumplicidade que o tempo cada vez mais ajuda a construir.

Costumo dizer que amizade é amor sem sexo. O contrário não é verdadeiro, porque o amor não dispensa a amizade. Sou mais amigo de quem mais amo. Como o amor mesmo pode dispensar o sexo (a paixão não!) podemos então, verdadeiramente, sermos amigos de pessoas do mesmo gênero ou não. Aliás, o que mais nos impede de cultivarmos amizades reais são conceitos ou pré-conceitos sócio-culturais e histórias de vida. Quando, contudo, nos ocupamos de nossa humanidade, absolutamente desimporta qualquer outra referência que não seja a humanidade do outro. Claro que podemos ter amigos que sejam mais ou menos humanos que nós, mas quem cultiva a intolerância ou quem restringe as suas experiências e relacionamentos à uma carta de obviedades, tem maiores dificuldades em se encontrar plenamente com grandes amizades.

É necessário, também, que nos permitamos ser flexíveis o suficiente para compartilharmos com os outros o que somos. Por vezes nossa auto-crítica anda tão alta e nossa estima pessoal tão baixa que nos tornamos áridos, secos de sentimentos e mesmo estranhos a nós mesmos. Não raramente deixamos de viver prazeres porque nos embrutecemos a tal ponto que perdemos a capacidade de sentir e, portanto, de nos congraçarmos com o outro. Passamos a ser vítimas de uma indiferença a qual demos causa.

Grande amigo meu, D., tem conversado comigo de quanto percebe as amizades ou os relacionamentos esvaziados; casamentos, namoros, nada disso parece estar a salvo de um escapismo individualista, em que cada uma das partes busca, em primeiro lugar, seu interesse, para somente depois pensar ou referenciar o outro. Infelizmente tenho de concordar, pois é assim que percebo um mundo onde as intenções sempre passam pelo individual, pela satisfação de desejos muitas vezes inalcançáveis. Talvez por isso a amizade seja cada vez mais tão buscada, como um aporte aos sentidos e aos sentimentos, como um local especial, onde podemos confiar, onde podemos ser nós mesmos. A retirada da máscara social da conveniência talvez seja, aí a operação mais difícil e, por todos esses fatores, é indispensável que haja tempo para que a amizade amadureça, crie vínculos, raízes, possa estender-se além do manto da superficialidade óbvia a qual todos nós nos submetemos.

O tempo para descobrirmos o sabor do vinho, para crescermos, para chorarmos e nos angustiarmos; o tempo para sorrirmos e construirmos nossos pequenos-grandes sonhos, para caminharmos e reconhecermos, em nossas vidas, um projeto. O tempo para que tenhamos possibilidades reais de termos poucos, raros, talvez apenas um amigo. Talvez, e com muitíssima sorte, um Schannini José K, ou um Stalimir, um Antonio Augusto ou uma Jaqueline.

Amizades que lembram um vinho (e é claro que muitos amigos/as não estão listados/as como exemplo, mas poderiam estar, sabem disso) maduro, requerendo tempo, maturação, conversas, troca de experiências. A amizade reside aí, e não nos interesses imediatos e negociais. Somos amigos porque queremos ser e continuar sendo. Como disse uma vez, amizade é amor sem sexo.

Paradoxos

05/03/2014

Talvez em nenhuma outra época da humanidade tenhamos acumulado tantos recursos científicos, técnicos e de conhecimentos. No entanto admitimos um caos social organizado e consciente orquestrado por parte daqueles que não tem qualquer compromisso senão com sua própria vaidade e egoísmo. Aceitamos pacificamente que pessoas e organizações acumulem riquezas materiais publicáveis apenas em cifras de milhões, de bilhões, assim como o fazemos em relação aos milhões que vivem abaixo da linha da miséria e que não tem acesso à medicina, à educação, à habitação e condições mínimas de cidadania.

Continuamos tratando de fontes de reservas animais, vegetais, minerais e do subsolo como se fossem inesgotáveis, quando sabidamente não são. Nunca, por efeito das tecnologias de comunicação, da informática, da medicina, da biotecnologia e da agricultura estivemos tão próximos de conseguirmos solucionar os problemas mais aflitivos que afligem a todos, o desemprego, a violência, o cansaço, a dor e, por outro lado, nunca depredamos tanto, além de demonstrarmos conscientemente nossa indiferença social, cultural, afetiva e financeira em relação ao outro. Somos radicais na preservação dos nossos sítios, mesmo que as raízes plantadas estejam minguando dia-a-dia.

Descartamos valores como solidariedade, maturidade, amizade e compaixão, substituindo-os pela arrogância, pelo dinheiro e pelo consumo. Como desaprendemos a conviver, para quase tudo deve haver uma lei, uma norma, uma regra, uma normatização para regular nossos comportamentos, o que aumenta a sensação de perda de liberdade individual. Para sabermos que não podemos dirigir alcoolizados milhões são mobilizados em campanhas publicitárias para dizer-nos o que já foi ditado pelo bom senso.

Admitimos ainda regimes fechados de governo, bem como o jogo sórdido promovido por meios de comunicação. Sabemos definir problemas, mas não temos ética nem respostas institucionais equilibradas para encaminhar as soluções. O mundo, mesmo assim, progride. Nunca houve tantos hospitais, tanta informação, tantas possibilidades de uma vida com maior qualidade. As organizações sociais, comunitárias e assistenciais se multiplicam. Indústrias criam necessidades artificiais para que nós, consumidores, possamos nos perder em sonhos e cartões de crédito, enquanto campeia a violência e a desumanidade programadas, o que aumenta o cinturão de miséria que a cada dia se torna mais denso, apertando os limites das grandes cidades. Confiamos em religiões, mas não em nossos vizinhos que, na maior das vezes, desconhecemos.

Dizemo-nos civilizados, mas banalizamos a tortura, a guerra comercial e os extermínios étnicos, que, em nome das religiões, são tolerados, incentivados e mesmo banalizados pela imprensa, a mãe de todos nós. Nossa solidariedade termina onde começa nosso interesse. Somos um poço de paradoxos e examinamos nossos umbigos como se o mundo todo estivesse ali, para prestar suas homenagens às nossas frágeis e inconsistentes arrogâncias. No entanto, continuamos, e as nossas vidas vão construindo pontes entre tais paradoxos e inconsistências.

Então nos dizem que o caminho para que consigamos sair destas incongruências é a educação, mas mesmo ela não tem a capacidade de iluminar tanto esta longa estrada. É necessário, além dela, que tenhamos informação, além de uma tábua de valores e de virtudes que não se esgotem e não se esvaiam quando surgem interesses menores.

Hay hombres que luchan un dia y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos. Pero hay los que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles. Bertold Brecht.

É necessário cultivar a inteligência no sentido civil, não nos alienarmos do que ocorre, não pensarmos que o que acontece além de nós não nos alcançará, mas nos colocarmos na pele daquele que já foi alcançado pelo infortúnio; que não tenhamos medo de contrariar pessoas ou instituições e que busquemos a probidade; que tenhamos coragem para dizer o que é justo mesmo que tenhamos prejuízos com isso. É hora de nos tornarmos mais que homens e mulheres, mas humanos. Somos todos humanos e não podemos compactuar com o vírus paralisante e letal da estupidez.

15/02/2014. HILTON BESNOS
 

Escrever de modo conveniente

Escrever de modo conveniente.

Vejam, amigos, aconteceu isso com fulano ou com beltrano no século xis. Percebam que o escritor zê também tocou no tema no século ypsilon. Assim sendo, vou conduzí-los, senhores leitores, a que pensem comigo e cheguemos todos à mesmíssima conclusão que, por ser de domínio geral, os senhores já chegaram antes de começar a ler o que eu escrevi. Por outro lado, meus fiéis leitores: isso não é bom, não nos dá a todos uma sensação de déja vù reconfortante?” HILTON BESNOS

Um dândi mexendo no motor de um carro. O jeito confortável de escrever me incomoda. Acaba dizendo sempre obviedades, e se estrutura a partir do senso comum. Quando escreve sobre liberdade, não toca em nenhuma ferida, em nada que não seja conveniente. Nada de ingressar em profundidades, pois isso leva a compromissos, estabelece alianças, mas pode ser perigoso para quem possui na escrita um meio totalmente comercial de expressão. Voltando: quando escrever sobre liberdade, se lembrará então algum escritor, ou pessoa pública que fez isso ou aquilo a respeito do tema e – zás! – temos aí mais uma crônica maravilhosa para lermos no jornal, de preferência no café da manhã ou durante as tardes de domingo e pronto, esquecermos com a mesma facilidade com que lemos.

Quem escreve assim tem muitos leitores fiéis: é o entertainment escrito. Poderá até selecionar algum assunto mais rumoroso, mas ele mesmo, escritor, não se permitirá nenhum tipo de exposição; invariavelmente irá conduzir sua produção para o senso comum. Será a favor do amor, da liberdade de modo geral e da liberdade de imprensa de modo particularíssimo, será anti-racista, anti-sexista e anti qualquer parâmetro que não esteja ligado ao senso comum. Por isso, será quase que uma unanimidade, desenvolvendo um estilo inconfundível praticamente impermeável à marginalidade, ao estranho, ao estrangeiro e ao desviante. É um escritor que se devota aos perfumes do bom senso, cultivando uma postura judicante.

Há nessa escrita uma fluidez, uma delicadeza etérea, quase que urbanística, uma comodidade, uma inteligência no escrever que faz com que o estilo seja tão soberano que a mensagem em si não importe tanto. Afinal, quando nos dispomos a lê-lo, já sabemos de antemão que nada encontraremos de polêmico, de incomodativo, de trabalhoso, de perigoso, de instigante. Então, comme si comme sa, ali está nosso biscuit, nosso biscoitinho literário que irá combinar perfeitamente com o que fazemos ou não fazemos em nosso dia-a-dia.

Ora, com o decorrer do tempo o que mais se destaca nesse conjunto é o modo de escrever, o estilo, a forma e não aquilo que foi escrito, a mensagem que talvez remotamente devesse ser transmitida, os nós que possivelmente gostaríamos de desatar (mentira!) ou as denúncias que pretenderíamos fazer. Como tal escritor não se envolve absolutamente com tais agruras, em verdade não importa muito o que ele escreva, mas sim a maneira pela qual escreve. O estilo, então, avulta, toma asas, fica em um plano superior.

Aqui a criatividade morre, passando a ser apenas um subproduto comercial. Exatamente como os cordões de um par de tênis que nos servirá durante algum tempo e que, dias depois jogaremos fora, quando algo mais interessante nos acenar do mercado. HILTON BESNOS.

Eu sei, mas não devia

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.u

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna.


O texto acima foi extraído do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

Se eu não puder te esquecer

23 de março de 2014. Muito pessoal. Pois hoje fui fazer uma homenagem a duas pessoas. Eu e meu pai. A homenagem foi esta: indo assistir ao Moacyr Franco e Trio Irakitan no Clube Náutico, aqui em Fortaleza. O primeiro a se apresentar foi o Trio Irakitan, que, por menos que saibamos, tem mais de sessenta anos de estrada, para ser mais exato, sessenta e três. E Moacyr Franco tem, atualmente, setenta e seis anos.

Por que uma homenagem ao meu pai? Porque nós cantávamos Moacyr Franco, porque nós éramos românticos incuráveis e, parece que continuo sendo, embora alguns não concordem com esta auto-avaliação. Mas enfim… de repente estávamos em casa e o velho Israel aparecia em casa com o último LP do Moacyr. Ou nos domingos à noite, quando eu procurava o melhor abrigo do mundo, os braços do meu pai  e ficávamos escutando músicas e músicas e conversando e trocando ideias. E eu era um garoto, que só mais tarde saberia que também amava os Beatles e os Rolling Stones (pule a parte do Vietnã).

Hoje, claro que me emocionei, mas procurei um canto mais reservado, para sentir mais ainda meu pai junto a mim.

Quanto ao show, devo dizer que foi ótimo, especialmente para quem curtia Moacyr Franco. Era uma outra época e o cantor usou duas  imagens preciosas. Começou dizendo que estava ali para cantar músicas que “entram por aqui” e apontou o próprio coração e, continuando, “saem por aqui”, e apontou os olhos, como se lágrimas estivesse vertendo. Na verdade, apontava que estava ali para cantar músicas brasileiras que lidavam com os sentimentos e com suas contradições.

Mais tarde, contou outra história. “Quando disseram que minha carreira havia terminado”‘, disse, “fiquei muito triste”.  “Pois”, continuou, “uma noite estava cantando para quinze pessoas em um circo no ABC paulista, e chovia muito. Quando terminei o show”, falou, ” um homem negro e alto veio até a mim e perguntou se podia gravar uma música de minha autoria. Perguntei quem ele era, e ele respondeu, ‘que ele e um amigo formaram uma dupla caipira, e gostariam de cantar  Se eu não puder te esquecer”‘. Moacyr topou “e o homem saiu saltitando embaixo da chuva como se tivesse feito um gol. O ‘homem era Marciano, da dupla João Mineiro e Marciano, e a música vendeu mais de dois milhões dle discos”, conclui, para  a final, ajuntar que “aprendi que quanto mais escura a noite, mais próxima está a manhã”.

Moacyr Franco, aos setenta e seis, canta como uma banda excelente e sua voz é absolutamente perfeita. Amei conhecer de perto o trabalho de Moacyr, e sei que, além do belo espetáculo, que fez o público rir, dançar, se emocionar e cantar, ainda me trouxe talvez o que de mais precioso possa ter tido: a presença de meu pai.

A do dia – Argélia e Charlie Hebdo

A DO DIA: Postei em meu blog sobre a Guerra da Argélia, processo que decorreu entre 1954 e 1962, buscando a Independência daquele país, então colonizado pela França, de modo brutal. Normalmente não posto fotos tão cruas e mostrando tão claramente a estupidez e a sanha de sangue derramado. Comenta-se sobre isso a respeito de uma possível retaliação ao Charlie Hebdo, que seria uma atrocidade a mais dentro de uma vendetta interminável.Mas depois de tanto tempo, isso seria possível? Sim, o ódio permanece, posso lhes assegurar disso porque sou judeu; fosse negro, diria o mesmo. De todo modo, é bom que saibamos que o velho aforisma continua vivo: para alguém ganhar, um outro deve perder. Não sejamos portanto ingênuos em briga de lobos. Nem, por outro lado, alimentemos o sentimento de culpa de uma esquerda civilizadamente posta, que procura, ao mesmo tempo, afagar terroristas, notoriamente islâmicos, como forma de purgar as explorações e os assassinatos cometidos pelas grandes potências. Sejamos mais realistas. Dentro do que ocorre no mundo, o que me vem mais à mente é, por um lado, a falta de informação e de leitura capaz de compatibilizar e de entender mais profundamente o que ocorre por aí, sendo o mundo uma aldeia global, no sentido de McLuhan e, por fim, a manipulação quase didático-pedagógica das massas através dos poderes instituídos (muitas vezes quase institucionais) postos pela mídia empresarial e pelos interesses de poucas pessoas, sejam físicas ou jurídicas. O massacre de Charlie Hebdo continuará, por muito tempo, a alimentar e fomentar ódios, idiossincrasias e a alimentar nossas mentes despreparadas para entender o mundo.

Cadê o mundo?

Às vezes passa muito, muito tempo sem que respondamos a alguém, ou que tentemos conversar; sempre é ruim quando não recebemos notícias de quem gostaríamos. E, sei, tenho o defeito de, por vezes, abandonar temporariamente mas não propositadamente as pessoas com as quais tenho ligações. É claro que os ritmos de vida são imperiosos, e acabamos relegando prazeres e os substituindo por obrigaçãoes.

Repasso a minha lista de endereços: tanta gente querida que vai sendo temporariamente abandonada: Alberto, Lia, Lyslei, Magda C., Thiago… os nomes vão se acumulando e, em seus lugares, vem os compromissos, a escola, a faculdade, os estresses do dia-a-dia profissional. E, como canta o Almir Satter, “… lá vai uma chalana, tão longe se vai, vai descendo o remanso do rio Paraguai…”

Um dia nos damos conta de que a chalana sumiu, e que só restam recordações, e vai nos dando uma tristeza muito grande. É claro que uma comunicação pressupõe retornos inesperados e que, de certo modo, também as pessoas que eu estimo igualmente estão me vendo em diferentes chalanas…

A vida pós-moderna (ou seja lá que outro nome tenha), vai aos poucos moldando as caixinhas que o mercado de consumo nos acondiciona, e vamos nos esquecendo que nunca na história da humanidade tivemos tantas chances de nos comunicarmos: computador, correios, telefone, celulares,…

Acho que é porque talvez a grande ilusão nos queira induzir a trocarmos um beijo por um chocolate, um abraço por um modelo novo de celular, uma conversa tranquila por um lanche de fast-food, um carinho por dinheiro, sexo por site pornô. A única maneira de nos livrarmos dessa solidão não querida, esquizofrênica é mandarmos tudo às favas e procurarmos conversar com as pessoas que gostamos: sempre teremos algo a dizer e sempre seremos escutados, o que é e sempre será ótimo. O isolacionismo é uma profecia auto-realizavel. As nossas vidas, contudo, não!