O nome da esquerda (que ousa dizer seu nome)

Fonte: Convergência

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O nome da esquerda (que ousa dizer seu nome)

Betto della Santa

Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política – de Norberto Bobbio, filósofo italiano mundialmente reputado – teve tradução brasileira lançada apenas um ano após sua aparição na Itália, pela Editora Unesp, sob prefaciação de Marco Aurélio Nogueira poucos anos após a queda do Muro de Berlim. O que o projeto intelectual de Bobbio intendia, e seus congêneres brasileiros emulavam, era o que no mundo da política se consagrou como a síntese, por assim dizer, entre liberalismo, por um lado, e socialismo, por outro. O livro ganhou o mundo.

Para Além da Esquerda e da Direita: o futuro da política radical – de Anthony Giddens, conhecido sociólogo acadêmico britânico –, sob tradução de Alvaro Harttnher, pôs em circulação (pela mesma editora) uma obra surgida no contexto efetivo do mesmíssimo 1994, na Europa ocidental, tão-só um ano depois. A tradução da tradição seria reinventada por Giddens, e encontraria sólo fértil para uma versão tropical no Brasil, sob o codinome de guerra do que viria a ser a “Terceira Via” ou um neosocial-liberalismo. Tal qual dizem os italianos; tradutor, traidor.

A coincidência espaço-temporal (e suas respectivas aclimatações) impõe uma reflexão crítica. Se no compêndio universitário Anthony Giddens meneia a cabeça para fora do campus ensaiando pisar o palácio de governo, sob signo de uma velha-nova “revolução sem revolução”, é Norberto Bobbio quem vai exprimir um corpo de ideias vigoroso e claro o bastante como para merecer ser lembrado até hoje. Vinte anos após sua primeira publicação no país e passados já mais de dez anos de governos dirigidos pelo Partido dos Trabalhadores vale a pena ver de novo…

Esquerda, volver

Antonio Gramsci estabeleceu que o quantum máximo de consciência possível dos grupos sociais fundamentais na sociabilidade capitalista, i.e., os proprietários não-trabalhadores e os trabalhadores não-proprietários (ou exploradores e explorados), seriam, justamente, o liberalismo e o socialismo; enquanto as suas quotas mínimas, ou de maturação ainda “embrionária” – e “molecular” –, seriam, nas suas expressões mais baixas, o protecionismo por um lado, e o corporativismo por outro. Mas, e Direita e Esquerda, onde entrariam? Palavras têm história. E a história dos homens não tem sido outra senão a história das lutas de classes. Ora, senão, vejamos.

Esquerda, já o sabemos, trata-se de uma noção operativa e, sobretudo, relacional. Isto é, uma posição no interior de um Spectrum, a qual se referencia a partir de outras posições. Os significados – e as razões – da noção de Esquerda remetem, necessariamente, a Direita e a Centro; divisões que retém relevância, até hoje, ainda e quando a localização e a fronteira de cada uma esteja longe de ser fixa. A origem desse termo é sobejamente conhecida. É relativa à Revolução Francesa – marco histórico da política moderna – durante sua Assembléia Constituinte. Quão mais próximo/distante do piedoso ideal de igualdade social, mais Esquerda/Direita ser-se-ia.

Quer seja pelo pressuposto teórico conceitual – individual e social, respectivamente – ou pelo conflito histórico concreto, entre quem possui e governa e quem trabalha e é governado, liberalismo e socialismo representam politicamente irreconciliável antagonismo social. O escriba italiano considera o igualitarismo real impossível (“desigualdades naturais existem e, se algumas delas podem ser corrigidas, a maior parte não pode ser eliminada”; BOBBIO, 1995, p.102) ou improvável (“podem ser apenas desencorajadas”; idem, ibidem) porque, para ele, a defesa da superação de todas desigualdades seria resultado de uma “visão utópica (…) mas, pior do que isso, uma pura declaração de intenções, à qual não pareceria ser possível adjudicar … sentido razoável.” (idem, p.100.)

De raiz

Reanudar o núcleo vivo dessa contradição real – ou a dilaceração societária em classes – é tomar distância da letra do texto e do projeto político delineados por Bobbio. Uma esquerda digna desse nome deve começar por se lembrar que no princípio, antes do verbo, está a ação. Para uma esquerda que não abandonou a perspectiva revolucionária ousar dizer seu nome não é mais que um começo. Mas pode ser um bom começo. Inclusive, mesmo, bom começo de prosa. Se tradicionalmente Esquerda e Direita remetem a um sistema topológico de fronteiras móveis há algo para além (ou aquém) de desenhar a linha divisória. Algo quiçá mais antigo, subterrâneo.

Depois de confrontadas as relações passadas e presentes de uma distinção política entre Direita e Esquerda, e após aludir ao corajoso – muito embora autolimitado – e combativo título de Vladimir Safatle (2012), uma questão permanece em aberto. Para além de responder o que é Esquerda seria, no mínimo, importante, perguntarmo-nos o que a Esquerda é. Uma escavação arqueológica a contrapêlo da história das ideias se faz, aqui e agora, necessária. Há nas palavras Direita e Esquerda algo mais à contracorrente do quê, já pura e simplesmente, uma posição relacional nos vestibulares debates do parlamento, no processo político-social francês do Séc. 18.

O radical que une radicais, cujo substrato mais fincado remonta ao principio igualitarista, sejam eles anarquistas coletivistas, socialistas revolucionários ou comunistas internacionalistas, não deixa de ser o mesmo, nos mais distintos idiomas. Os vocábulos anarquismo, socialismo e comunismo permanecem similares em português e espanhol, inglês ou francês, alemão e russo; mas são usadas palavras muito diferentes para referir-se à esquerda: linke, gauche, Left etc. Com um juízo implícito, de sabor libertário, poder-se-ia concluir que, enquanto a Esquerda nos divide, anarquismos, socialismos e/ou comunismos são de fato, mais que por direito, aquilo que nos une.

“Gauche na vida”

Carlos Drummond fala de um anjo torto que lhe teria vaticinado ser “gauche na vida”. “Let’s play that”, de Torquato Neto, re-cita a referência drummondiana, como a necessidade férrea de “desafinar o coro dos contentes.” Apesar da forma de palavras tão manifestamente diferentes entre si – nas mais diversas línguas – há, nelas, algo de latentemente identitário: a obscuridade e/ou ubiqüidade de um sentido latente ao respectivo conteúdo. Left deriva da raiz Anglossaxã Lyft; Fraco; Débil. Já Sinistra, do Lat. Sinistrum, deriva de Mal; Infortúnio. O bem-aventurado seria “Ambidestro”, qual seja, habilidoso, com as duas mãos, isto é, as mãos Direitas.

Droit, Right, derecho, rechte, destro ou dret, o Direito, para que nos façamos destros e claros, tem significação a mais unívoca e positiva: a Retidão, as Leis, o Certo. Todo contrário de Canhoto o qual, aliás, tem de se adaptar a uma realidade espelhada, que se apresenta ao avesso, impondo-se-lhe um mundo invertido. Historicamente, em várias regiões do mundo, o lado Esquerdo, e em especial, o Canhotismo manual, foram considerados, essencialmente, negativos. Direito/Direita seriam a Autoridade/Justiça, Propriedade/Legitimidade, Autenticidade/Realidade. As associações de direito à Direita, e da direita a Direito falam, eloqüentemente, a esse respeito.[1]

As trilhas de tais considerações remontam linhagens da antiguidade clássica e passagens das mais remotas civilizações antepassadas. “Eres tan Zurdo”; “To have two Left feet”; “S’être levé du pied Gauche” e, enfim, “Que Canhoto/Canhestro!”, são sinônimos para o contrário do Bem e do Bom. As associações desfavoráveis – e/ou as conotações negativas – da utilização da mão esquerda entre diferentes culturas são variadas. Em algumas regiões, a fim de se preservar a limpeza pessoal quando o saneamento era problema de difícil solução, a mão direita, enquanto mão predominante na maioria dos indivíduos, foi utilizada para comer, manipular alimentos ou interagir socialmente. A mão esquerda era usada para a higiene sobretudo pós-micção/defecação.

Ezkerr, um nome próprio

No islamismo é costume usar a mão direita, em oposição à esquerda, como a mão para se levar comida à boca. No cristianismo a direita de deus representa a mão favorecida e Jesus está sentado ao lado destro. (A esquerda, porém, é a mão do juízo. O arcanjo Gabriel fica a seu lado canhoto, e é um dos seis anjos da morte.) Na Europa do Séc. 19 homossexuais eram chamados “Canhotos” enquanto, nas nações protestantes, os católicos foram chamados “Pés canhotos”. A magia negra foi referida como “caminho à esquerda”, fortemente associada a satanismo e, em muitos lugares, “mau-agouro”. No panteão Yorubá, Esquerda alude a energias pouco iluminadas.

Gauche, Left, izquierda, linke, sinistra, esquerra, a Esquerda, tem significado canhestro. Não bastasse, na língua portuguesa, o buraco é mais embaixo. O vocábulo Esquerda/Esquerdo advem do Euskera –  idioma basco/vasconço –, Ezkerr, via Castelhano; Izquierdas. As diversas línguas nacionais da Península Ibérica – como o catalão, o galego e o castelhano; este último tão-simplesmente chamado “espanhol”, sobretudo na América Latina e/ou fora da Europa ocidental – herdaram à língua d’Euskadi – País Basco – radical comum Ezkerr: Izquierda/Esquerra/Esquerda.

Acontece que o idioma Euskera, basco ou vasconço, é justamente uma das únicas línguas vivas cuja origem é a mais absolutamente desconhecida, até hoje, dentre lingüistas, antropólogos e experts. Não pertence ao ramo filogênico indoeuropeu e tampouco tem qualquer similaridade com as estruturas lexicossemânticas / linguisticogramaticais de qualquer idioma/dialeto praticado nas proximidades e cercanias seja dos eixos Norte-Sul ou Oeste-Leste no continente eurasiático. Assim sendo, uma filologia vivente da palavra Esquerda demandaria conhecimento especializado no campo etimológico mais ardiloso da história social e político-cultural comparada das línguas.[2]

Da cultura à política, do político ao cultural

O processo histórico-social que a noção de Esquerda perquiriu até adentrar o vocabulário político moderno tem a ver com a temporalidade lenta das mais longas durações e à secular tradição do princípio igualitarista. E, acreditamos, não pode ser associado à mera casualidade o acaso objetivo de, àqueles que conspiravam contra o poder legal de veto real à Esquerda do parlamento, ter-lhes ocorrido postar-se do lado de cá e não no de lá. A relação política e cultural, com periféricos ou subalternos, deserdados da Terra e à margem da história, seria um mero azar? Uma escovação da história a contrapêlo permite, e um marxismo profano exige, tal interpretação.

Mas por que expressões como Gauchismo, Leftwing communism e/ou Ultraesquerdismo seriam taxadas pejorativas justamente entre a “esquerda da esquerda”? O Zeitgeist da época às vezes, como que de galhofa e/ou em tom de galhardia, pode soar tão zombeteiro quanto um verdadeiro espírito de porco. Longe de socialista revolucionário ou comunista internacionalista, como o eram Karl Marx e Friedrich Engels, quem se nos reconta – em tom de história oral e autobiográfica – é Renato Ortiz, um já reconhecido antropólogo cultural brasileiro. No 33º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais, a (poderosa) Anpocs de-há poucos anos Ortiz tomou parte à abertura na seção solene, “Conversa com o Autor”.

Para reconstituir à sua própria demarché um jornalista político francês é parafraseado para descrever/narrar um ambiente político e intelectual em que não se reconhecia mais como Esquerda a socialdemocracia ou o stalinismo naquele 1968 parisiense: “O gauchismo é como o Sal de que fala a escritura, seu sumiço levaria a um deserto de farisaísmo e imobilidade. (…). Seu destino não é a disciplina, mas a transformação. … a recusa. (…) Privada de gauchistas uma sociedade é dirigida à asfixia.” Um burocrata sindical exclamaria alto: —“Não somos nós!” para delimitar-se de anarquistas, dissidentes e trotskistas no cortejo do 1º de Maio. Ontem como hoje toda esquerda pode parecer extrema, se vista do palácio, e soar ultra, quando ouvida do gabinete. A crítica ao cretinismo antiparlamentar e o embate à idiotia eleitoral são parte da mesma herança.

Referências bibliográficas

BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: razões e significados de distinção política. São Paulo: Unesp, 1995.

SAFATLE, Vladimir. Uma esquerda que não tema dizer seu nome. São Paulo: Três Estrelas, 2012.


[1] O jogo de palavras que dá nome à noção de Copyleft, em oposição a Copyright, não deixa de ser um belo exemplo.

[2] Sem qualquer pretensão de resolver a questão, por ora nos basta com saber que mesmo dentre os estudiosos há as mais diferentes versões polêmicas a respeito da genealogia do adjetivo Ezkerr. Além de uma curiosidade. Ezkerr, entre os bascos, constitui popular nome próprio. Curioso também notar que intelectuais tão perspicazes quanto Bobbio, Giddens e Safatle não tenham dito palavra sobre aquilo que, originalmente, a Esquerda quer, de fato, dizer…

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O país da água (com gráficos)

FONTE: CONEXÃO ISRAEL

http://www.conexaoisrael.org/o-pais-da-agua/2014-05-15/amir

O país da água

Como Israel venceu um dos seus maiores desafios e transformou-se em uma nação com excesso de recursos hídricos?

Uma fonte de problemas políticos e econômicos

Desde antes da criação do Estado, a questão do abastecimento de água esteve na pauta de prioridades das lideranças sionistas. Um dos motivos da criação dos livros brancos na época do mandato britânico, que restringiam à imigração de judeus a terra de Israel na época do Ishuv, foi o relatório escrito peloexpert em agricultura, Sir John Hope Simpson, que apontava para um gargalo no suprimento de água na região, impedindo assim qualquer aumento populacional, sob pena de uma total escassez de recursos hídricos para seus habitantes.

A apreensão apenas se intensificou após 1948. Em menos de dez anos, a população do país mais do que duplicou e a falta de suprimento de água figurava entre os principais desafios do recém-criado estado.

O tempo passou, mas o desafio continuava. O desenvolvimento agrícola restringia-se de acordo com as possibilidades do país – a escolha do tipo de produto agrícola dependia da quantidade de água necessária para o seu plantio. A disputa pelos recursos hídricos serviu de fonte de atritos políticos tanto com a Síria, como com a Jordânia. Inclusive, a disputa pela água do rio Jordão foi um dos principais motivos causadores da Guerra dos Seis Dias. Ou seja, a água era tanto um problema estratégico interno que limitava o desenvolvimento econômico, como uma fonte reincidente de atritos com os países vizinhos.

imagem kineret

Se a demanda aumenta…

Sir John Hope Simpson tinha razão em dizer que o aumento da demanda tornaria inviável a questão hídrica no país, mas ele errou em acreditar que a oferta de água se manteria estática.

Havia espaço para novas fronteiras tecnológicas. A revolução teve origem na utilização de duas novas fontes de água não consideradas previamente: a água tratada do esgoto e a água proveniente do processo de dessalinização.

O gráfico 1 nos mostra a evolução da quantidade de água tratada por esgoto (reutilizada para fins agrícolas) e a água obtida por meio do processo de dessalinização em 1990, 2000, 2010 e 2011.

 grafico1

Por falta de dados mais detalhados para todas as categorias, não expus as quantidades atuais, mas estima-se que em 2013, as plantas de dessalinização já detém o potencial de produzir 505 milhões de metros cúbicos (mais que o dobro do que está apontado no gráfico para o ano de 2011). Uma revolução. O avanço tecnológico se deu por conta de um grande investimento do governo em plantas de dessalinização, mesmo quando estas ainda eram economicamente inviáveis.

Na última década, beneficiados pela descoberta de campos de gás natural – fato este que torna menos custosa a produção de água por este método, reconhecido por seu altíssimo consumo de energia – os israelenses passaram a contar com uma fonte segura de abastecimento. Estima-se que o custo baixou de $1 por metro cúbico para $0.40, ou até menos nas plantas mais modernas.

Paralelamente, Israel criou um esquema de tratamento de água de esgoto para fins agrícolas que está entre os mais desenvolvidos do mundo. Como pode ser visto no gráfico 2, a partir de 2011 o uso deste tipo de água foi maior que o uso de água doce na agricultura. A utilização deste recurso tem dois benefícios simultâneos: introduz uma nova e importantíssima fonte de água para o país e reduz a necessidade do uso de fertilizantes, já que a água reciclada já contém diferentes nutrientes que ajudam no enriquecimento do solo.

grafico2

As consequências

Da mesma forma que no campo político, a questão da água passou de motivos de guerra para a assinatura de acordos de paz com os jordanianos, a receita pode repetir-se agora que Israel goza de um saldo de recursos. Este superávit pode ser uma importante moeda de troca em uma região em que a água ainda é escassa e disputada. Se não diretamente, a elaboração de projetos de cooperação em conjunto com países vizinhos pode vir a ser um fator essencial na criação de uma utópica (hoje em dia!) integração regional.

Gráfico 3 – Variação do nível da água do lago Kineret

A linha vermelha de baixo representa o limite inferior: o momento de preocupação do israelense

Enquanto isso, a população segue observando atentamente o nível de água do lago Kineret (gráfico 3). Anos de poucas chuvas são marcados por apreensão, enquanto anos chuvosos ainda são comemorados. A cultura por aqui continua a mesma, seja por desconhecimento, seja por tradição.

Particularmente, não acredito que a população mudará seu comportamento, já que esta cultura de valorização dos recursos hídricos passou a ser uma marca da sociedade – ela está enraizada no pensamento do israelense.

Mas mais importante que isso, a história da água apresenta uma característica ainda mais marcante desta sociedade. Característica esta que foi a responsável pela idealização, criação e segue hoje sendo um pilar básico da continuação deste Estado: a exímia capacidade de transformar desafios em oportunidades.

Fontes:

http://www.haaretz.com/news/national/1.570374

http://www.water.org.il/

http://www.mekorot.co.il/HEB/WATERRESOURCESMANAGEMENT/CONSUMEDATA/Pages/default.aspx

http://www.mekorot.co.il/Heb/articles/Pages/Kinneret.aspx

www.cbs.gov.il

Livro de ouro da agricultura e colonização – Editado pelo jornal Maariv, 2012

Uma elite que combate o Bolsa Família, mas não se acanha em usar o Estado

FONTE CGN

http://jornalggn.com.br/noticia/uma-elite-que-combate-bolsa-familia-mas-nao-se-acanha-em-usar-mordomias-do-estado

 

Uma elite que combate Bolsa Família, mas não se acanha em usar mordomias do Estado

Por Ana Helena Tavares

O bolsa-madame e o bolsa-família

Do QTMD? (Quem tem medo da democracia?)

Um grupo de mulheres de deputados reúne-se num chá oferecido por uma delas. O convidado de honra é Eduardo Cunha. No cardápio, um pedido para que volte um benefício que garante às madames passagens de graça para acompanhar os maridos.

O que isso diz sobre a sociedade brasileira? Machismo em alto grau partindo de mulheres. Hipocrisia de uma elite carcomida que combate políticas públicas para os mais pobres, mas não se acanha em usar e abusar das mordomias do Estado.

A uma ex-catadora de papelão, que se tornou presidente da Petrobrás, não é permitido roubar. Se roubou ou não pouco importa. Não é com isso que as madames bem-nascidas estão preocupadas. Ela simplesmente não pode roubar. Os maridos iluminados podem.

Num mundo em que todos comam, onde todas as classes, cores e credos sejam julgados da mesma maneira, como madame poderá ser madame? Como aeroportos poderão ter o vazio sepulcral dos lugares reservados a privilegiados?

É dolorosamente atual a frase de Raymundo Faoro: “Eles querem um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo”. E como dói constatar que, depois de tantas lutas por direitos iguais, elas também querem isso.

Não são todas, é claro, para alívio da nação, mas a composição do Congresso que toma posse neste domingo, 1º de fevereiro de 2015, não deixa dúvidas quanto ao caráter conservador, machista, preconceituoso, da maior parte da sociedade brasileira.

O dinheiro pode ser livre – para quem convém que seja livre. Seres humanos têm que viver presos. Presos à moral alheia, presos a dogmas. E, aqueles que “não deram certo”, presos a grades. Quiçá, mortos.

Num país de senzalas inconfessas, não é de se espantar que distintas senhoras não se contentem em viver à custa de homens. Querem mamar nas tetas do erário. Não lhes envergonha em nada receber o “bolsa-madame”. Faz parte da nossa tradição secular.
Se forem vistas por aí em alguma passeata contra a roubalheira na Petrobras e contra o bolsa-família, dirão que estão lutando para salvar o Brasil. E serão capa da maior revista semanal, como já foi o “caçador de marajás”. A honestidade dos que dizem lutar contra a corrupção me comove.

Papa recebe transsexual no Vaticano: “Deus aceita-te como és”.

FONTE GELEDÉS
http://www.geledes.org.br/papa-recebe-transsexual-no-vaticano-deus-aceita-te-como-es/#axzz3QmVZKF5u

Papa recebe transsexual no Vaticano: “Deus aceita-te como és”

Publicado há 2 dias – em 2 de fevereiro de 2015 » Atualizado às 19:11
Categoria » LGBTI

 papa

Depois de dois telefonemas, o encontro. O Papa Francisco recebeu esta semana um cidadão espanhol transsexual e a namorada no Vaticano. “Claro que és filho da Igreja”, disse.

Por , do Observador 

Diego Neria Lejárraga era Cuca até há oito anos, quando decidiu fazer a operação de mudança de sexo. Católico praticante, sofreu durante anos com o facto de não ser aceite pela Igreja. Pelo menos pela parte mais conservadora da Igreja na pequena cidade espanhola de Plasencia, em Cáceres, onde sempre viveu. Há uns meses resolveu escrever uma carta ao Papa Francisco onde expunha o que sentia e onde questionava se era mesmo filho de Deus. Mensagem recebida. O Papa telefonou-lhe e o encontro com Diego e a namorada, Macarena, concretizou-se este fim de semana no Vaticano.

“Deus quer bem a todos os seus filhos, sejam como forem, e tu és filho de Deus por isso a Igreja aceita-te como és”, terá dito o Papa Francisco quando telefonou ao espanhol de 48 anos, que chegou a ser apelidado por um padre de ‘filha do diabo’, para marcar os pormenores da sua ida ao Vaticano. O encontro realizou-se no sábado passado, mas foi marcado propositadamente fora da agenda oficial do chefe da Igreja Católica, longe dos holofotes.

Conhecido por telefonar às pessoas sem se fazer anunciar, o Papa Francisco ligou pela primeira vez a Diego a 8 de dezembro, dia da Imaculada Conceição, e voltou a apanhá-lo no telemóvel no dia 20 para acertar os pormenores da viagem. Segundo o El Mundo, que já falou com Diego Lejárraga depois do encontro papal, a primeira vez foi apenas para dizer que estava a par da sua situação e que queria recebê-lo no Vaticano. Prometia ligar novamente.

Prometido, cumprido. A 20 de dezembro, Diego estava de visita a Sevilha, onde vive a namorada, quando recebeu a segunda chamada. Entrou numa loja para acalmar o ruído e poder ouvir melhor. Era o Papa que estava do outro lado da linha a perguntar-lhe quando lhe dava mais jeito ir a Itália. “Durante o fim de semana é melhor, não é?”, perguntou o chefe da Igreja Católica. “Quando quiser”, limitou-se a responder. Ficou então marcado para um sábado, para não interferir com a semana normal de trabalho do convidado, e depois de Francisco ter pedido uns minutos para olhar para a agenda, lá atirou: “Tenho uma possibilidade no dia 24 de janeiro às 17h, que tal?”.

Feito. Respondendo às dúvidas logísticas de Diego, o Papa ainda terá pedido para não se preocupar com os gastos da viagem. De resto, “basta chegarem à porta da residência de Santa Marta e dizerem que estou à vossa espera”.

Oficialmente, a Igreja não reconhece mudanças de sexo, mas o Papa Francisco instou-a a mostrar mais compaixão para com setores da sociedade que se sentem excluídos, nomeadamente quando recentemente disse, a propósito dos homossexuais, “Quem sou eu para os julgar?”.

Diego Lejárraga não adiantou muito à imprensa sobre o que foi dito na audiência com o Papa, por ser “um segredo só deles [nosso]”, mas descreveu o momento como “uma experiência única”. No limite, sabendo que a transsexualidade ainda não é bem aceite por todos, espera pelo menos que o seu caso sirva para que outras pessoas na sua situação não passem pelo mesmo tipo de discriminação que ele passou.

4/2/2015Geledés Instituto da Mulher Negra

Jornalismo de horrores

FONTE OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA
http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed827_jornalismo_de_horrores
MÍDIA SENSACIONALISTA
Jornalismo de horrores

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 02/12/2014 na edição 827

Gentil e visceralmente, o poeta Eugênio Giovenardi propõe versos para melhor alertar a Humanidade sobre os perigos comportamentais oriundos do distanciamento da sensibilidade, levando, por exemplo, pessoas a cometerem atrocidades violentas que prejudicam a qualidade de vida no mundo. No livro Ventos da alma (2003), especialmente nos poemas “Preocupações” e “Horrores cotidianos”, Giovenardi destaca criticamente o peso da violência simbólica (mãe da violência física) promovida pelo jornalismo sensacionalista.

Cada agente midiático é responsável por aquilo que diz/escreve, num nível existencial em que nossos compromissos éticos, políticos e estéticos encontram-se e ligam-se estreitamente. Ao naturalizar a tristeza, a “imprensa marrom” contribui para a transformação do horizonte colorido em totalidade cinzenta, fazendo-nos crer que a felicidade é um tipo de “impossível desnecessário”, projetando, assim, um “efeito estufa” no qual o trágico é alçado perigosamente como resumo mais apropriado do humano.

No primeiro poema assinalado, Giovenardi utiliza o recurso da enumeração gradativa, negativamente condicionada a processar automaticamente a realidade social como se ela fosse um mero conjunto de quinquilharias atitudinais ordinárias. O cotidiano é empobrecido por conta da ausência do sublime, favorecendo a proliferação nefasta doimpério do grotesco:

“O juro da caderneta,/ a flutuação do dólar,/ a conta da luz,/ a antena da tevê,/ o mau humor da empregada,/ as bebedeiras do caseiro,/ a ausência dos amigos,/ a superficialidade das telenovelas,/ a indiferença dos funcionários/ do Correio e da Telebrasília./ As queimadas criminosas e primitivas,/ os alarmes dos carros,/ os cavalos de pau/ e os pegas noturnos,/ os meninos de rua,/ os cuidadores de carro,/ os ladrões de banana,/ os anões do congresso,/ os políticos ladinos,/ os corruptos insignes,/ as falas do presente,/ os protestos inúteis do cidadão,/ as imunidades da corte,/ as impunidades legais./ Brazagallo, brazico, Brasil,/ o imenso carnaval continental,/ a irresponsabilidade geral.”

Muros antissociais

Interessa-nos, de perto, perceber como o poeta apela objetivamente para o meio descritivo no sentido de melhor dissertar sobre a pequenez de nossas preocupações que impedem a experiência da vida em plenitude. Considerar tudo o que se passa como mínimo também prejudica a sensibilidade humana como linguagem afetiva capaz de acolher as sutilezas variadas, conforme a natureza específica e relacional de cada matéria. Cair no conto da mesmice é, assim, perder de vista o que de maravilhoso acontece, aceitando o enfadonho como única instância do real. Nesse sentido, “a antena de tevê” e “a superficialidade das telenovelas”, segundo Giovenardi, fazem parte da lista de fatores negativos que rebaixam ou inviabilizam a nossa potência de agir, mirada na qualidade estética (a procura do belo) e ética (a procura do bem).

Crescem, desse modo, os “horrores cotidianos”, em progressão assustadoramente geométrica. Assim, Giovenardi, no segundo poema citado, prossegue em seu empenho de defender a dimensão afetiva como potência de transformação expansiva. Infelizmente, a imprensa sensacionalista vem se colocando como promotora de muros antissociais, desestimulando consequentemente a construção de pontes comunitárias que possam, de fato, ligar todas as fontes subjetivas de onde brotam todas as riquezas substantivas:

“Incêndio na favela de Heliópolis,/ explosão do shopping de Osasco,/ matanças nas periferias/ de qualquer cidade,/ chacinas no centro de hemodiálise/ de Caruaru./ Mortes em massa na casa de velhos/ Santa Genoveva,/ chacina de sem-terra/ em Corumbiara e Eldorado/ de Carajás./ Sangue, choro, desespero,/ velórios coletivos, solidariedade,/ heroísmo, passeatas, protestos,/ discursos, promessas, fotografias,/ reportagens ao vivo,/ quase anunciadas,/ quase programadas./ Silêncio! enterro das vítimas./ Esquecimento./ Até daqui a pouco./ Até a próxima.”

Violência com indiferença

Está projetada nestes versos uma realidade editorial concreta: a mídia e sua “necrofilia insaciável”. Os destaques jornalísticos oferecem prioridade à melodramatização de um discurso que parece fascinado pelo sangrento e o macabro. Desponta, no jornalismo sensacionalista, a cultura do fait divers (introduzido por Roland Barthes, no livro Ensaios Críticos, em 1964), formado por um mosaico noticioso de ocorrências escandalosas, curiosas e bizarras que, desde o início da imprensa, dão o tom editorial mais apelativo, visando chamar a atenção da audiência. Em ritmo industrial galopante, o mercado noticioso não pode parar. Ele é marcado por fatos que se esgotam, quando cumprida a sua missão efêmera, e que, em seguida, devem ser destruídos: fisicamente, diz-se que os jornais do dia anterior “servem apenas para embrulhar peixe”; psicologicamente, sua memória será substituída por uma novidade no dia seguinte.

O triunfo do jornalismo sensacionalista sobre o jornalismo de reflexão contribui para a atitude passiva de muitos setores da sociedade em relação à violência. Trata-se de um sistema perverso que sobrevive às custas da produção, em larga escala, da “mercadoria da crueldade”, conforme termo cunhado pelo professor Adélcio de Sousa Cruz, emNarrativas contemporâneas da violência: Fernando Bonassi, Paulo Lins e Ferréz (2012). A insensibilidade, frente aos fatos, se agiganta, conforme o alto volume de frases de defeito moral conferidas pela criminosa imprensa do trauma. Bestificados com o teatro de horrores, transmitido diuturnamente pela mídia, fecham-se os olhos para as mazelas do mundo. Tudo em prol de frivolidades que promovam um generalizado escapismo alienador e maléfico. Um atentado à vida deixa de ser preocupante – eticamente falando – por razões de alteridade anestesiada. Muito bem ilustra esta tendência rudimentar a canção De frente pro crime (1975), composta por João Bosco e Aldir Blanc:

“Tá lá o corpo estendido no chão/ Em vez de um rosto uma foto de um gol/ Em vez de reza uma praga de alguém/ E um silêncio servindo de amém/ O bar mais perto depressa lotou/ Malandro junto com trabalhador/ Um homem subiu na mesa do bar/ E fez discurso pra vereador/ Veio camelô vender anel, cordão, perfume barato/ E a baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato/ Quatro horas da manhã baixou o santo na porta-bandeira/ E a moçada resolveu parar, e então…/ Tá lá o corpo estendido no chão/ Em vez de um rosto uma foto de um gol/ Em vez de reza uma praga de alguém/ E um silêncio servindo de amém/ Sem pressa foi cada um pro seu lado/ Pensando numa mulher ou num time/ Olhei o corpo no chão e fechei/ Minha janela de frente pro crime.”

Um dos maiores agentes difusores e produtores da violência, o fazer sensacionalista povoa o jornalismo de palavras espinhosas, impedindo que a sociedade reconheça seus membros como seres floridos e capazes de oferecer ao mundo o “mel do melhor”. O fel do pior, elevado midiaticamente à enésima potência, provoca um fenômeno extremamente perverso: a “banalidade do mal”, como diria Hannah Arendt. Na “imprensa marrom”, as palavras ficam sobrando, pois não fundam vínculos sociais, não esclarecem mentes e corações, não atraem relações sensíveis e não acrescentam nada de dignificante para a humanidade. Sabemos que a realidade humana encontra-se fundamentada segundo os princípios do bem e do mal, do aperfeiçoamento e da destruição. E para darmos conta desta composição ambivalente, precisamos nela mergulhar mediante a palavra pensada, a palavra consciente.

No sensacionalismo, a palavra escandalizada e pisoteada dá o tom do barulho frenético midiatizado grosseiramente, beneficiando o modelo apressado de cobrir a realidade jornalisticamente. No beco escuro das redações, explodem a violência com indiferença. A respeito, já alertava Carlos Drummond de Andrade, em Poema do jornal (1930):

“O fato ainda não acabou de acontecer/ e já a mão nervosa do repórter/ o transforma em notícia./ O marido está matando a mulher./ A mulher ensanguentada grita./ Ladrões arrombam o cofre./ A polícia dissolve omeeting./ A pena escreve./ Vem da sala de linotipos a doce música mecânica”.

***

Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários

Afinal, pelo que as mulheres têm tesão?

FONTE EOH 
http://www.entendaoshomens.com.br/afinal-pelo-que-as-mulheres-tem-tesao/
Afinal, pelo que as mulheres têm tesão?

A pergunta que jamais calou (e ainda está longe de calar) no século XXI: O que as mulheres querem? De psicólogos a poetas, todos formularam infinitas teorias para tentarem explicar o mistério, e confesso que ainda não compreendi. Mesmo sendo mulher, e amando sê-lo, prefiro estudar todas as leis da metafísica do que tentar explicar as razões de uma TPM.

Mas quando o assunto é tesão, eu me arrisco a um palpite. Portanto, homem, antes de continuar essa leitura, esquece esse bíceps. Juro, pode esquecer. Você não deve a ele nem uma ínfima porcentagem de mulheres (veja bem, mulheres) com as quais você transou.

Aquela última, lembra? Provavelmente sentiu-se atraída pelo seu cheiro ou pelo modo como você fumava, ou pelo tom da sua voz quando disse “alô” ao telefone. Talvez pelo seu andar, pela combinação jeans + camiseta branca, pelo modo como você dirigia enquanto acariciava a coxa dela ou pelo seu papo espirituoso. Enfim, existem milhões de possibilidades que podem tê-la deixado molhada logo que pôs os olhos em você, mas isso provavelmente não teve muito a ver com o seu bíceps – ou com a sua conta bancária, se é nisso que você está pensando.

Não dá pra explicar – como todas as coisas maravilhosas na vida – o que é que leva alguém a sentir tesão. Se fosse assim, ninguém precisaria se masturbar. Teríamos uma legião de comedores e comedoras que não passam vontade. (E, cá pra nós, temos mais punheteiros na face da terra do que grãos de areia no mar.)

A verdade é que tem muita gente errando nos elementos afrodisíacos, por assim dizer. Calma – no vinho você tem acertado. O erro está – na minha humildíssima opinião – no modo como as pessoas costumam conquistar. Cultivando o artificial e deixando a naturalidade de escanteio. Calma de novo – Não há nada de errado com ir à academia, antes que os marombas de plantão comecem a me bombardear. Mas eu, como mulher, posso contar: A maioria das mulheres quer dar para homens sensíveis e seguros. Não, não existe um manual quilométrico. Pode acreditar em mim: Existe, apenas, um charme natural a ser cultivado. O seu charme.

Só se pode ter uma certeza quanto a isso: Não há receita pronta. Não se trata de ter um pau grande e viril, um abdome sarado, uma barba sedutora ou seja lá o que for. Tesão é instintivo demais para obedecer um padrão. Ele vem de uma conversa na hora certa, de um olhar que diz algo que a outra pessoa consegue, imediatamente, captar. De um cheiro que faz ela querer chegar mais perto ou de um abraço despretensioso que funciona como uma amostra grátis do que você pode proporcioná-la (sim, nós observamos isto).

As mulheres que vão te proporcionar um sexo gostoso não sentem tesão por paus em tamanhos inacreditáveis ou bíceps bem definidos. Sentem tesão pela sua história, pela sua voz, pelo som da sua risada, por qualquer detalhe seu que tenha uma conotação sexual (não proposital, evidentemente). Mulheres bem resolvidas não querem dar pra um pau, pra um bíceps ou um par de coxas. Querem dar a um homem: Com vivências e peculiaridades, capaz de proporcionar experiências que vão (muito) além do orgasmo.

 

 

O esquecido campo de concentração nazista só para mulheres

FONTE BBC BRASIL

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/01/150126_campo_concentracao_mulheres_cc?ocid=socialflow_facebook

O esquecido campo de concentração nazista só para mulheres

  • Há 2 horas

Mulheres de Ravensbrück | Foto: Getty
Campo no leste da Alemanha reuniu mulheres judias, ciganas, prostitutas e ativistas europeias

Auschwitz-Birkenau, Treblinka e Dachau são notórios campos de concentração do Terceiro Reich alemão que se fixaram na consciência humana por causa das atrocidades cometidas com os homens, mulheres e crianças presos neles.

Muitos outros campos são menos conhecidos, como o de Ravensbrück.

Apesar de ter sido um dos primeiros a serem abertos – em 1939, pouco antes do início da guerra, a 80 km de Berlim, em um cenário idílico na costa báltica – e um dos últimos a serem liberados – em 1945 –, este campo de trabalho e, no final, de extermínio, permaneceu às margens da história.

Ravensbrück era exclusivamente para mulheres.

No fim da Segunda Guerra Mundial, cerca de 130 mil haviam passado por suas portas.

Entre 30 mil e 50 mil morreram de fome, de exaustão, de frio ou pelos tiros e pelo gás administrados pelos guardas nazistas.

Nomes de campos de concentração nazistas | Foto: Getty
Campo de mulheres foi um dos primeiros a serem abertos e o último a ser liberado

Várias internas eram judias, mas elas não eram maioria. Havia prisioneiras políticas, ciganas, doentes mentais ou as chamadas “associais” – prostitutas ou quaisquer mulheres consideradas “inúteis” pela doutrina nazista.

“Ravensbrück era uma história com a qual eu havia me deparado e me dei conta de que era quase desconhecida”, disse à BBC Sarah Helm, que acaba de publicar um livro sobre o campo de mulheres.

Leia mais: Bebê ‘ariano ideal’ em capa de revista nazista era judia

O livro se chama Se isto é uma mulher, uma referência ao famoso livro do escritor italiano Primo Levi Se Isto é um homem, que descreve sua prisão por ser um membro da resistência antifascista na Itália e sua experiência no campo de Auschwitz.

“Assim como Auschwitz foi a capital do crime contra os judeus, Ravensbrück foi a capital do crime contra as mulheres”, afirma Helm.

“Estamos falando de crimes específicos de gênero, como abortos forçados, esterilização, prostituição forçada. É uma parte crucial da história das atrocidades nazistas.”

Helm diz ainda que, na fase final do campo, muito depois de ter sido suspenso o uso de câmaras de gás nos campos mais ao leste da Europa, uma delas foi construída em Ravensbrück. “Eles levaram partes das câmaras desmanteladas em Auschwitz. Até esse extermínio – no qual morreram seis mil mulheres e que foi o último extermínio em massa da história do nazismo – foi, em grande medida, deixado de lado.

Trabalho escravo

Crematório em Ravensbrück | Foto: Getty
Prisioneiras foram exterminadas em câmaras de gás mesmo depois do fim da prática em outros campos

Selma van der Perre foi uma das internas de Ravensbrück e contou à BBC como eram os dias naquele lugar.

“Éramos despertadas a gritos às quatro da manhã. Em seguida, tinhamos que responder à chamada e nos davam café. Nos deixavam ir ao banheiro e às 05h30 tínhamos que ir trabalhar na fábrica da Siemens, onde pagavam pelas prisioneiras: nós não recebíamos o dinheiro, ele era entregue à SS (força paramilitar nazista).”

“Trabalhávamos por 12 horas e depois voltávamos ao campo. Por volta das 20h nos davam um prato de sopa e dormíamos.”

A rotina era recheada de casos de crueldade dos quais pouco se falou. Tragédias que, ao serem contadas por sobreviventes, segundo Helm, fizeram com que ela e também seus tradutores chorassem, como a descrição de uma francesa sobre como deixavam que os bebês morressem de fome.

Outros testemunhos afirmam que algumas mulheres eram “deixadas quase nuas na neve até morrerem” e outras tinham “germes de sífilis injetados na medula espinhal”.

Coragem em meio ao desespero

Cartaz de cerimônia para relembrar prisioneiras | Foto: Getty
Mulheres eram submetidas a crimes de gênero e a cruéis experimentos científicos

Em seu livro, Helm também destaca as histórias de bravura e de solidariedade, como a das “77 cobaias”, que reúne ao mesmo tempo o melhor e o pior de Ravensbrück.

Em 1942, as prisioneiras passaram as ser usadas como cobaias em experimentos científicos. Em “operações especiais”, elas tinham os músculos da pele cortados e eram inseridos vidro, madeira ou terra nos ferimentos. Algumas não recebiam tratamento e outras sim, com tipos de drogas diferentes.

Os experimentos se repetiram algumas vezes, mas quando chegou o momento de esconder as provas e matar as cobaias, todo o campo conspirou para escondê-las.

“Aqueles experimentos não provaram nada para a ciência, mas, sim, para a humanidade”, escreve Helm.

Mas por que se sabe tão pouco sobre esse campo de mulheres?

Estátuas em Ravensbrück | Foto: Getty
Após o fim da guerra, história de Ravensbrück ficou escondida sob a cortina de ferro

“Uma das razões principais é que, depois dos julgamentos pelos crimes de guerra, que ocorreram imediatamente depois do fim da Segunda Guerra Mundial, começou a Guerra Fria, veio a cortina de ferro e Ravensbrück ficou do lado oriental – de modo que permaneceu, em grande medida, inacessível ao Ocidente”, afirma a escritora.

“Os que estavam no leste da Alemanha não esqueceram de Ravensbrück, mas o converteram em um centro de resistência comunista, de maneira que as lembranças das mulheres ocidentais e das judias desapareceu por completo da história. Também desapareceu a história das alemãs que estiveram lá no início, que é uma das mais esquecidas.”

Eram mulheres como a austríaca defensora dos direitos da mulher Rosa Jochmann, social-democrata e membro da Resistência; como Läthe Leichter, a feminista socialista mais famosa durante o período da “Viena vermelha”, entre as guerras mundiais, e como a alemã Elsa Krug, uma prostituta que praticava BDSM (sigla em ingês para Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), mas se recusou a bater nas outras prisioneiras.

“Ignorar Ravensbrück não é só ignorar a história dos campos de concentração, é também ignorar a história das mulheres”, afirma Sarah Helm.

O problema não é o tema

FONTE PLANETA EDUCAÇÃO
Wanda Camargo é educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil.

O problema não é o tema23/01/2015
Wanda Camargo

O número expressivo de candidatos que não recebeu nota na Redação da prova do Enem 2014, mais de quinhentos mil, quase dez por cento do total de inscritos, surpreendeu e assustou todos os brasileiros interessados em educação e no futuro do país.

O presidente do INEP declarou candidamente “Estou comparando duas coisas que não são completamente comparáveis. Temos um tema diferente em dois anos diferentes.” Já o ministro da Educação afirmou “Eu arriscaria uma tese: o tema de 2013 foi lei seca. Essa questão foi muito debatida, discutida. O tema da publicidade infantil (no ano passado) não teve um grande processo de discussão como o outro.”

Tanto a comparação de um quanto a tese de outro não se sustentam; pelo menos dentro da concepção clássica do que seja um processo de avaliação. Avaliar não é, ou pelo menos não deve ser, uma atividade destinada a dificultar ou facilitar a vida do avaliado, serve para aferir seu conhecimento, competência, formação, capacidade, qualificação, e toda qualidade que possa ser necessária para algum fim.

No caso específico do Enem a finalidade é das mais nobres: obter dados de qualidade, em quantidade suficiente, para que se possa fazer um mapeamento consistente das condições do ensino médio no país, algo indispensável para a sua melhoria. Além disso, a classificação obtida no Enem é item indispensável para a obtenção das bolsas de programas federais como Prouni e Fies; e também do programa Ciência Sem Fronteiras, que abre para os estudantes possibilidades de internacionalização, experiência de vida sem os familiares e em outros idiomas, muito significativa para o amadurecimento, e melhoria da preparação profissional. O exame tem razoável confiabilidade para ser utilizado como único processo de seleção de candidatos a inúmeras instituições de educação superior, públicas e privadas.

Se houvesse a necessidade de realizar uma única prova para aferir as condições de um candidato em qualquer processo seletivo não estritamente técnico, a imensa maioria dos professores certamente optaria por uma redação.

O tema da redação deve, sim, ser um pouco inesperado, afinal, o que está em avaliação é a capacidade de ler e escrever. Efetuar a leitura cuidadosa dos textos de apoio e o enunciado da questão, entender, interpretar, efetivar o solicitado: escrever, com clareza, lógica e coerência um texto sobre o proposto, e com razoável respeito às normas cultas da Língua Portuguesa. Nas provas de redação do Enem, sempre são fornecidas informações suficientes para que isso seja realizado; o que se procura impedir, ao fugir dos temas mais previsíveis, é a ocorrência de redações “pré-fabricadas”, escritas em grupo ou copiadas, e meramente transcritas na prova, evitando a simples memorização.

Se houvesse a necessidade de realizar uma única prova para aferir as condições de um candidato em qualquer processo seletivo não estritamente técnico, a imensa maioria dos professores certamente optaria por uma redação. O pedido da realização de um texto argumentativo, com enunciado bem formulado, e que guarde relação estreita com a finalidade do concurso a que se refere, é quase definitivo para verificar as condições de um aspirante.

E, fora da área acadêmica, há reclamações de que os candidatos a empregos têm grande dificuldade para ler manuais simples, e para escrever textos minimamente inteligíveis. Não há políticas inclusivas que resolvam esta questão, a justiça social consiste em dar o máximo de oportunidades para que as pessoas superem suas condições de partida e melhorem de vida, e isso não se conseguirá aceitando padrões intelectuais e culturais cada vez mais baixos. O hábito de leitura é essencial, pessoas que leem adquirem capacidade de interpretação e expressão, compreendem o contexto do mundo em que vivem e fazem boas redações sobre qualquer tema.

 

Educação: um processo cooperativo

FONTE REVISTA ESPAÇO ACADÊMICO Nº 71

http://www.espacoacademico.com.br/071/71andrioli.htm

Educação: um processo cooperativo

 

Por ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI 

Professor do Mestrado em Educação nas Ciências da UNIJUÍ – RS. Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela Universidade de Osnabrück – Alemanha

 

A superação de diversos paradigmas educacionais ocorreu pela contraposição de propostas. A contradição do embate de propostas, portanto, resultou em progressos no processo pedagógico. Entretanto, a ideologia e os projetos de sociedade aparecem intrínsecos aos paradigmas da educação, visto que o espaço educativo apresenta um grande potencial de manutenção ou de transformação das estruturas sociais.

Nesse texto, estaremos apresentando basicamente duas propostas para a educação: uma competitiva e outra cooperativa. A opção de cada escola por uma ou outra abordagem leva em conta seu compromisso com determinados valores que, com o decorrer do tempo, produziu determinadas concepções que são apresentadas como consenso em cada realidade local.

  1. A educação para a competição

Os mecanismos de competição estão presentes em muitos momentos da prática educativa. Podemos afirmar que as idéias de “superioridade” e “competência”, tão propagadas na ideologia liberal, são interpretadas como relativamente consensuais por muitas pessoas e se constituem na perspectiva da competitividade. O que muitas vezes não aparece com muita evidência é que, seguindo a lógica competitiva, necessariamente teremos como conseqüência a exclusão. Se é necessário competir para “ser algo”, nessa compreensão já está presente, também, a idéia de que nem todos poderão “sê-lo”. Assim, em termos concretos, num grupo que aceita a lógica competitiva, essas pessoas alimentam a ilusão de poderem ser o que já está claro que não será válido para todos. Mas, enquanto cada pessoa, individualmente, não imagina a perspectiva da sua própria exclusão, o conjunto segue competindo. Essa é uma evidência lógica importante para percebermos a contradição da idéia da competição, se apresentada como parte integrante de uma prática educativa.

Em termos de atividades educativas, são muitos os momentos em que a lógica da competição se manifesta. Podemos citar algumas para exemplificar: os jogos e brincadeiras onde se terá vencedores e perdedores, gincanas, festivais, as notas classificativas que diferenciam os alunos em termos de “capacidade”, a preparação para o vestibular (processo altamente competitivo, portanto excludente), concursos de leitura, de redação, de horta escolar, de beleza, enfim, grande parte do sentido da educação voltada para a inserção dos educandos no mercado de trabalho capitalista. Os exemplos demonstram como essas atividades existem no trabalho de muitas escolas e, com certeza, muitos já passaram por elas e, geralmente, com elas concordaram sem questionar plenamente o seu sentido.

É evidente que isso não acontece somente nas escolas, mas também nelas, onde o espaço da reflexão crítica poderia ser privilegiado, a reprodução de idéias competitivas é muito forte. Em poucas palavras, José Ignácio Rey faz uma contundente crítica ao ideal competitivo: “Ao valorizar a competição, ao levantá-la como bandeira, o homem vê o outro como seu inimigo. Prevalece então a lei da selva, onde sobrevive o mais forte, o mais vivo, e quando há um ganhador, o mais forte, surgem, irremediavelmente, a marginalidade e a opressão”[1].

No contexto atual, a competição passa a ser vista como uma luta dos que se situam como excluídos das condições básicas de sobrevivência pela sua inclusão numa realidade, as quais, entretanto, constituem direitos básicos do ser humano. Assim, por um lado, a luta por mínimas condições de vida, e por outro lado, a disputa pelo “luxo”, como diferenciação em relação aos outros (idéia de superioridade), ambas impregnadas pela lógica competitiva nos tempos modernos.

O filósofo Rousseau, já no período de surgimento e afirmação do liberalismo, compreendia o comportamento competitivo como um dos maiores problemas para a democracia, visto que representava a ilusão dos seres humanos em se compararem uns aos outros, com o intuito de se verem como superiores entre si. Nesta questão, em específico, Rousseau fez uma análise da sociedade de sua época e identificou um problema central no relacionamento entre os seres humanos: o sentimento de comparação. Pierre Manent interpreta esse sentimento em Rousseau, como sendo o infortúnio e o pecado originais do ser humano civilizado: “O infortúnio: o homem que se compara é sempre infeliz – haverá sempre alguém mais rico, e, se sou eu o mais rico, então não serei o mais belo ou o mais inteligente. O pecado: o homem que se compara é sempre corrompido ou está a ponto de sê-lo, não só porque o desejo de tornar-se primeiro o levará como que pela mão a cometer todas as velhacarias corriqueiras que a moral reprova, mas também porque as necessidades da concorrência o obrigarão a apresentar aos outros uma imagem de si que lhes agrade, a se envaidecer e a envaidecê-los; seu exterior nunca estará de acordo com seu interior, sua vida será uma mentira permanente. (…) o homem que se compara é o homem que, em suas relações consigo mesmo, só pensa nos outros. É o homem dividido” (MANENT, 1990: 103).

O sentimento de ficar se comparando aos outros é explicitado por Rousseau com o termo amor-próprio, não entendido como amor de si, mas, exatamente, como o desejo de ser mais que os outros. Isso é enfatizado de uma maneira muito forte por Rousseau, tendo em vista que a sociedade de sua época cultivava o valor do crédito, uma abstração que diferenciava as pessoas, valorizando-as de acordo com seu status na sociedade. A idéia do crédito, na França, referia-se à possibilidade de empréstimos financeiros concedidos a determinadas pessoas, que se identificavam como ricas. Não era o rei que determinava e, nem sempre, a própria riqueza dos privilegiados, mas a opinião que predominava e garantia esta diferenciação na sociedade (ANDRIOLI, 1998: 43). Essa crítica aos conceitos diferenciados atribuídos aos indivíduos na sociedade é importante para entendermos as seguidas refutações que Rousseau confere às opiniões dos homens, que estão diretamente ligadas ao desejo de ser mais que os outros, predominante entre os seres humanos no estado civil, ou então, o amor-próprio: “O amor-próprio vive da comparação, é o desejo de ser valorizado por outrem a um preço tão alto quanto o que se atribui a si mesmo, e está condenado a ser infeliz, já que todos possuem o mesmo amor-próprio e o mesmo desejo. O amor-próprio sabe que não pode ser satisfeito e odeia os outros pelo amor-próprio deles. Alimenta na alma a preferência infeliz por si mesmo e o ódio imponente aos outros. O homem de tal sociedade só vive pelo olhar dos outros, a quem odeia” (MANENT, 1990: 109).

O grande desafio, portanto, é o de contrapor à competição uma outra lógica que a supere qualitativamente, tanto no trabalho com os alunos como na sociedade. Conforme o sociólogo Alfie Kohn, “trata-se de ir para além de um ponto de vista individual. Mesmo que me pareça apropriada a competição… necessito perguntar-me se é do nosso interesse coletivo seguir competindo. Se não é assim, então precisamos não apenas pensar, mas também agir como grupo. Substituir a competição estrutural pela cooperação exige  a ação coletiva, e essa ação coletiva requer a educação e a organização… Temos que ajudar os outros a verem as terríveis conseqüências de um sistema que identifica o êxito de um no fracasso de outro. Mas juntos podemos agir para transformar isso” (in BROWN, 1994: 21).

  1. A educação para a cooperação

A educação pode ser entendida como uma ação cooperativa. Isso significa dizer que, tendo em vista a aprendizagem como um processo cooperativo de descoberta do conhecimento, esse só ocorre como resultado de uma socialização, uma construção coletiva. Coerente com a afirmação de Sara Paim de que “todo o conhecimento é o conhecimento do outro”, entendemos que a própria identidade do sujeito humano depende da existência de outras pessoas, pois é na relação com os outros que o ser humano se reconhece enquanto individualidade (PAIM, 1992). Se não existisse o outro, não seria possível a idéia de um “eu”. Como afirmou Karl Marx, em sua obra O Capital, o ser humano “não vem ao mundo nem com um espelho, nem como um filósofo fichtiano: eu sou eu, o homem se espelha primeiro em outro homem. Só por meio da relação com o homem Paulo, como seu semelhante, reconhece-se o homem Pedro a si mesmo como homem. Com isso vale para ele também o Paulo, com pele e cabelos, em sua corporalidade paulínica, como forma de manifestação do gênero humano” (MARX, 1988: 57, nota de rodapé 18). Conforme Piaget, “é na medida que nós nos adaptamos aos outros que tomamos consciência de nós mesmos. É na medida que os outros não nos compreendem espontaneamente, e que nós, da mesma forma, não os compreendemos, que nos esforçamos para modelar nossa linguagem de acordo com os mil acidentes que criam essa inadaptação e nos tornamos aptos para a análise simultânea dos outros e de nós mesmos” (PIAGET, 1967: 201).

Dessa forma, a cooperação está presente na própria idéia de pedagogia e, diferente do que em outras épocas, muitas elaborações atuais sobre a educação e o entendimento acerca do conhecimento colocam a práxis intersubjetiva como centralidade para a validação dos saberes. Com Habermas, o individualismo da filosofia da consciência, paradigma da educação com base na ciência moderna, passa a ser substituído por uma teoria da interação. Segundo Marques, Habermas “postula em lugar da razão monolítica, um conceito de razão comunicativa, dialógica. O conhecimento não se constrói na reflexão isolada, ou no interior de uma consciência, mas de forma dialógica, processual, tendo como referências básicas o grupo e a linguagem usual” (MARQUES, 1993: 79). E, citando Rouanet, “o homem é um ser plural: nasce numa comunidade lingüística e organiza suas relações com seus semelhantes sobre o pano de fundo de um mundo vivido intersubjetivamente compartilhado” (Idem). Nessa compreensão de conhecimento, “argumentar não é convencer ou persuadir alguém de algo, mas é chegarem os interlocutores a um entendimento novo de algo, entendimento cooperativamente produzido, já que resulta não da vitória de um dos contendores sobre os demais e não é simples soma dos diversos pontos de vista, mas reconstrução coletiva de um consenso, que não seria verdadeiro se não significasse o assentimento de cada um” (Idem: 99).

Está emergente, em nossa época, portanto, um novo jeito de compreender a atividade educativa. Essa compreensão supera o paradigma clássico da ciência que entendia o conhecimento como uma relação individual entre sujeito e objeto. Além de negar a idéia de que o saber é uma reprodução do objeto para o sujeito que o apreende (teoria predominante na Idade Média, com a Escolástica), novas reflexões pedagógicas procuram superar a razão instrumental, que acreditava na capacidade do sujeito individual produzindo o conhecimento.

Um dos aspectos principais a ser analisado na educação baseada na razão instrumental é a criação de currículos escolares que colocam as disciplinas como auto-suficientes e isoladas umas das outras: a fragmentação do conhecimento e seu afastamento da complexa problemática das relações sociais. Outro aspecto importante é o isolamento do processo de construção do conhecimento do seu ensino. É necessário, portanto, que na atividade própria da pesquisa se tenha ciência de como se dão os processos de aprendizagem e, enquanto educadores, possamos compreender como ocorre a produção do conhecimento nas ciências. Assim, o trabalho de pesquisa está sendo feito com vistas à aprendizagem e a própria aprendizagem se produz através da pesquisa. Permanecem dois momentos, mas interrelacionados, ou seja, o pesquisador pesquisa para aprender e fazer aprender e a aprendizagem acontece enquanto o conhecimento é produzido: se aprende produzindo conhecimento.

Nessa compreensão de educação, tanto a interdisciplinaridade como a interlocução estão inerentes a um trabalho que tem como propósito a construção do conhecimento. A aprendizagem, segundo Marques “é construção coletiva assumida por grupos específicos na dinâmica mais ampla da sociedade, que por sua vez, se constrói a partir das aprendizagens individuais e grupais. (…) Não se ensinam ou aprendem coisas, mas relações estabelecidas em entendimento mútuo e expressas em conceitos que, por sua vez, são construções históricas, isto é, nunca dadas de vez, mas sempre retomadas por sujeitos em interação e movidos por interesses práticos no mundo em que vivem. Em vez de o professor operar com conceitos que já aprendeu e na forma em que os aprendeu e que agora só necessitariam ser reproduzidos nos e pelos alunos, trata-se, no ensino, de ele e os alunos produzirem, em entendimento comum, os conceitos com que irão operar para entenderem as relações com que lidam” (Idem: 109-110).

  1. A educação cooperativa e a construção de práticas solidárias

O que mais nos desafia na educação cooperativa, é a sua dimensão pedagógica. Nesse aspecto, vamos analisar aqui apenas um aspecto que mais nos interessa para a presente discussão: de que forma a educação cooperativa pode contribuir na construção de práticas solidárias entre os alunos?

O fato de estarmos utilizando a idéia do cooperativismo, entretanto, não nos coloca na condição de justificadores das experiências cooperativas que existem. Pelo contrário, uma proposta de educação cooperativa deve se colocar como crítica às cooperativas. Inclusive essas instituições, cooperativas, enquanto empresas, só poderão ter coerência com os ideais que representam, enquanto teoria do cooperativismo, se fizerem uma profunda autocrítica de suas práticas.

O fato de estarmos colocando elementos do cooperativismo na construção da proposta de educação cooperativa em escolas se justifica pelo entendimento que temos da relevância social e educativa de sua teoria. Portanto, estamos nos referindo à teoria e prática do cooperativismo como uma forma de ser e viver em sociedade. “O cooperativismo se situa na linha do ‘dever ser’, não numa dimensão impositiva, mas como um apelo às consciências para optarem por uma proposta comportamental, na sua atividade econômica e social, que conduza a uma sociedade e a um sistema econômico alternativo, mais solidário, justo, autônomo, democrático e participativo. Os valores, princípios e normas que propõe são um paradigma que ajuda a orientar a ação dos cooperadores, no seu empenho em prol da realização dos objetivos da cooperação” (SCHNEIDER, 1993: 2).

Nesse sentido, também entendemos que o cooperativismo se apresenta como uma prática social que pode se adaptar a várias ideologias e compreensões de educação. No entanto, mantemos uma unidade no entendimento de que é contrária à sociedade capitalista e aos seus diversos mecanismos de opressão. Com esse entendimento, a sua ação está engajada e comprometida com a construção de novas relações sociais entre as pessoas. Concretamente, isso se expressa nas experiências práticas realizadas em escolas, desenvolvendo com os alunos e a partir desses, atitudes de resgate da cooperação e da solidariedade em contraposição aos valores do individualismo e da competição, típicos da cultura de nossa época. Temos, portanto, na prática cooperativa dos alunos a maior referência para uma proposta de educação cooperativa, tendo em vista que é na relação concreta entre os sujeitos sociais que se constrói a consciência social ou, especificamente em nossa abordagem, a consciência cooperativa.  Para Ferrière, citado por Gadotti, “a vida social, bem como a moral, o sentido do bem e do mal na vida coletiva, não podem ser apreendidos a não ser na prática” (in GADOTTI, 1997: 12).

Compreendemos que um dos primeiros momentos da superação do individualismo e da competição é a consciência dos alunos de que realmente são individualistas e competitivos. Afirma Paulo Freire, em sua obra Pedagogia do Oprimido, que os seres humanos, “somente na medida em que se descubram ‘hospedeiros’[2] do opressor poderão contribuir para o partejamento de sua pedagogia libertadora” (FREIRE, 1987: 32). Em seguida, Freire observa que, “quase sempre, num primeiro momento desse descobrimento, os oprimidos, em vez de buscar a libertação na luta e por ela, tendem a ser opressores também, ou subopressores. (…) ‘Reconhecerem-se’, a este nível, contrários ao outro, não significa ainda lutar pela superação da contradição. Daí esta quase aberração: um dos pólos da contradição pretendendo não a libertação, mas a identificação com o seu contrário. (…) Os oprimidos têm no seu opressor o seu testemunho de ‘homem” (Idem: 32-33).

Em nossa experiência educativa com cooperativas de alunos pudemos perceber que, em muitos de nossos grupos, essa elaboração teórica de Freire se efetivou na prática. Ou seja, nas cooperativas informais de alunos, um primeiro momento foi a tomada de consciência de seu individualismo e competição e o segundo passo foi a reprodução de preconceitos que vinham a reforçar uma cultura de exclusão como o machismo, o racismo, o autoritarismo. Em algumas das experiências isso parece ter sido superado e foi possível construir a autonomia do grupo, com a correspondência da prática, apesar e em função dos muitos problemas para que isso acontecesse, ao que o grupo almejava enquanto cooperativa. Observamos que nos grupos onde ocorreu uma efetiva discussão dos problemas, de forma que as contradições se tornaram evidentes (desveladas), houve maior progresso. Nos grupos que ignoraram ou não se propuseram a gerar conflitos e trabalharam de uma forma apenas idealista, verificamos discursos que reforçavam seu trabalho mas não se sucederam progressos no sentido da superação de preconceitos. Nessas experiências percebe-se, inclusive, um reforço aos preconceitos existentes.

Como afirma Gadotti, “não há duas escolas iguais, cada escola é fruto do desenvolvimento de suas contradições”. (GADOTTI, 1997: 57). A autonomia dos educandos em suas vivências cooperativas, entretanto, é decisiva para o processo de construção da consciência participativa: “O papel importante da autonomia (self-government) é o processo de ‘socialização’ gradual das crianças. (…) A educação para a cidadania dá-se na participação no processo de tomada de decisão”. (Idem: 12, 49). Além da oportunidade dos alunos terem os seus próprios espaços de decisão, em forma de experiência cooperativa, as escolas poderiam oferecer maiores condições efetivas de participação aos alunos nas decisões que dizem respeito à escola.

A opção pela educação cooperativa, portanto, pressupõe para a escola o desafio de abandonar o “medo da democracia” e de afirmar seu compromisso com a construção de um processo de crescente inclusão e participação, que culmine com a conquista de maior liberdade. Todas as relações entre seres humanos são relações de poder; a saída para o problema está na forma como concebemos e nos relacionamos com o poder. Nesse sentido, a educação cooperativa, como proposta multidisciplinar, baseada na ação coletiva e a na constante reflexão crítica sobre experiências concretas de alunos, pode oferecer elementos importantes para a construção de uma educação baseada na solidariedade e na transformação das relações sociais geradoras de opressão, competição, exclusão, alienação e preconceito.

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[1] Em entrevista: “O capitalismo educa o povo para que viva a imoralidade”, Marinanela Balbi, El Nacional, 05/03/87, em Caracas. In: BROWN, 1994.

[2] Hospedeiro: categoria utilizada por Paulo Freire para designar a condição vivida pelo oprimido ao reproduzir o opressor. Ou seja, ao “hospedar” o opressor em si, os oprimidos agem como seres duplos, inautênticos (FREIRE, 1987).